Domingo, Maio 27, 2007

O passado

Gente, eu não venho aqui há anos, por absoluta falta de tempo. E acredito que ninguém mais, além do Leandro, venha aqui ainda. Mas estou lendo um livro de um argentino chamado Alan Pauls e gostaria de compartilhar com alguém. É de longe um dos melhores textos que li nos últimos anos - e, acreditem, eu leio bastante. Vou entrevistar o Pauls amanhã, mas fiquem por enquanto com um trecho de "O passado":



"Anos mais tarde, a apenas setenta e dois dias (exatamente o tempoque Riltse levou para pintar a primeira de suas três extraordinárias Metades de Pierre-Gilles) de completar seus duodécimo aniversário, Rímini e Sofía se separaram. Tinham batido todas as marcas de longevidade conjugal que conheciam. Embora tivessem tido a delicadeza de dá-lo a conhecer de modo paulatino, num processo escalonado - das amizades novas às mais antigas, dos amigos solteiros aos que formavam um casal, da família dele, divorcistas pioneiros, à dela, que acabava de comemorar bodas de prata -, quando o rompimento adquiriu status oficial, no entanto, todo mundo vacilou, como se um tremor abalasse a terra ou um trovão estilhaçasse um silêncio de séculos. Não era possível."

Segunda-feira, Maio 21, 2007

The last cigarette

I'm gonna save the last cigarette
to my lover
to my sweet honeypie
that sleeps into the dreams
of mermaids and butterflies
and kisses and hugs
and Hank's mad and wonderful
fucks
cause, you already know,
she's my lover and she's
sleeping
anywhere I'm not at
this night.

Quinta-feira, Abril 26, 2007

An attempt.

I'm so tired, she moaned, kinda softly, really wanna give it up, boy. I guess I can't do it anymore, or, not so well as I used to do and it makes me sad, makes you bored and we don't need this in the end, this mess, this sadness, this end.

We could still try, we deserve it.

YOU deserve it, that's what yer sayin.

No, I mean us as a matter of fact. C'mon, all the time we're into it, all the words and hours and stuff. All the joy. All that jazz, baby.

She laughed. A little, shy, brilliant and genuine smile. Like a butterfly, swinging through my eyes and slipping away so blue. She would always have that smile in the face to me when I had to get home starved and damaged. That genuine smile, the butterfly.

But in didn't put these roundabouts into words. I only smiled back. A little bit devoted for sure, but trying to find a way to some unknown road into her heart. I only smiled back.

And that was all. Not enough. Not enough. Hell.

Segunda-feira, Abril 16, 2007

Bofetada

A mão dela, sempre flor, estalou no meu rosto. Ficou a marca e o eco nos meus ouvidos, nem reparei na hora se as pessoas saindo do supermercado ficaram olhando o barraco cair. Ela me olhou com toda a fúria do mundo e por instantes temi por minha vida, ou ao menos por minhas bolas.

Cafajeste, ela falou de dentes cerrados, cachorro. Não achei sábio avisar que ela poderia estragar as uvas se continuasse apertando o cacho dentro da sacola de compras com uma das mãos furiosas de seu corpo. Aquilo me deixava nu, me calava qualquer palavra e eu não tinha para onde fugir. Fugir como? Fugir para quê? Precisava ficar e apanhar como homem.

Não dei um pio, não me movi. Apanhei calado. Eu sabia que havia errado, eu sabia que nenhum erro passa incólume. Ela estava segurando a fúria havia uns dias, eu já tinha me dado conta. Pequenos detalhes na mesa do jantar, ironias acima do tom na saída do cinema, três chopes a mais diante dum jantar com amigos. Uma mulher pode te torturar aos pouquinhos só pra ver se você se entrega, entrega os pontos, pede perdão, compra flores, faxina a casa, compra uma casa em Trancoso.

Aquele bofetão, eu sabia, era um aviso. Não era o ponto final, mas já era uma definitiva exclamação. Porque Nidia não era de tapas, era mulher de argumentar e trucidar o sujeito à meia-voz. Ela me fazia cometer os sete pecados capitais simultaneamente à meia-voz. Ela me convenceu a passear no shopping com a irmã à meia-voz. Na única vez que sugeri, matreiro, uma bofetada, ela saiu da meia-voz pra perguntar se eu estava doido.

No entanto, ali, diante das compras e desconhecidos, ela gritou comigo fisicamente. Sua pele era um leopardo eriçado diante da presa.

Fez-se o silêncio e uma rotina sinistra. Guardou-se as compras, entramos no carro, fomos para casa. Em alguns quilômetros, senti sua mão em minha coxa direita, como que a alertar que ainda éramos um casal, eu apenas precisava ter cuidado. Ela chegou mesmo a ligar o rádio. Podia vê-la olhar a paisagem, os lábios cantarolando contra o vento. A mão já esboçava carinhos.

Com as compras, veio o elevador, um par de vizinhos, a porta e trinco. E veio ela contra mim. A fúria em seus lábios. "Acho bom você me convencer a não te escorraçar daqui pra fora", ela me mordeu a orelha num sussurro de naja. Suas mão viraram facas, os dentes espinhos. As compras no chão e aquela mão outra vez no meu rosto. Aquela mulher sabia como fazer um homem virar macho.

Quinta-feira, Abril 12, 2007

Malvados

Hehehe.

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

Web 2.0

Ótimo.

Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

Luchar, luchar

O tema é batido e a história é mais ou menos bem conhecida pelos letrados, mas nunca é demais fazer o apelo. Saiu numa coleção - ótima, diga-se - da Video Filmes o documentário "A Batalha do Chile", ultra-premiado e simplesmente fundamental para aqueles que se interessam por cinema, história, sociedade e quetais.

O diretor, Patricio Guzmán, estava terminando seus estudos na Espanha quando Salvador Allende venceu as eleições presidenciais chilenas em 1970. A democracia mais tradicional da América Latina elegia um comunista no poder, 11 aninhos depois da Revolução Cubana. Guzmán conta que largou tudo e correu de volta à sua pátria para documentar aquele momento mais do que histórico. Realizou um filmaço.

No filme, duas coisas impressionam: o apoio popular ao governo socialista de Allende e como o discurso burguês engrossa sempre que o povo chega mais ou menos perto de tomar o poder. Não recomendo a película a tucanos, que podem se constranger - se bem que Zé Serra estava Chile quando o pau comeu, exilado devido ao golpe de 64. Nos extras, o cinismo de dois americanos envolvidos no golpe (a história se repete mesmo) diante do massacre empreendido a uma democracia é de revirar o estômago.

Ficam no ar certas questões inexplicáveis. Como podem nascer sob a mesma bandeira o gênio de Bob Dylan e a mesquinhez sórdida dum Richard Nixon? A bravura elegante dum Caetano e a pequenez ridícula dum ACM Neto? Essas questões não estão explícitas no filme de Guzmán, mas o filme trata basicamente de pessoas e suas posturas - o mesmo Pinochet que manda bombardear o palácio do governo (com gente dentro) e oferecer um avião para Allende se exilar no além-Chile (com a ordem de abater esse mesmo avião) foi o chefe do dispositivo militar que deveria garantir o governo constitucional chileno, eleito democraticamente e aprovado em eleições parlamentares um ano antes do golpe.

Talvez haja quem não saiba, mas o golpe que tirou Allende do poder e o levou à morte (ele se suicidou, após sua resistência armada se mostrar infrutífera) aconteceu no dia 11 de setembro de 1973. Exatos 30 anos antes do 9/11 que tombou o WTC. Se eu fosse chileno, faria como a canção, "seguiremos nossas vidas e mesmo assim, não tenho pena de ninguém". Comemorar, só se Pinochet fosse enforcado num 11 de setembro perfurado em suas medalhas com suas tripas lhe estrangulando a vida. E seria muito pouco.

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

Pau duro

Cheguei em casa muitas horas depois do combinado e ela dormia, cansada feito eu mas provavelmente mais sóbria e mais limpa. Provavelmente. Conferi seu corpo na cama, abraçado a um travesseiro, o abdome respirando, os olhos fechados, o sibilo, os dedos. Veio o perfume como se ela não estivesse mais ali e tivesse me abandonado há anos e aquele cheiro fosse memória ou cicatriz. Fiquei de pau duro.

Senti o sangue concentrar e logo o pinto inchar e levantar, involuntário, forçando a cueca e logo uma pequena dor, um pequeno enema. Com a mão direita, senti a ereção e a apertei, era uma boa sensação se descobrir homem feito em plena madrugada, a fêmea sem saber, apenas ocupada em respirar. Se eu tivesse a noção do momento, bastava guiá-lo para dentro dela e sentir o pau duro penetrar sua carne aos poucos, rompendo o sono e grandes e pequenos lábios. Não seria a primeira vez.

Nidia acordava sempre com tesão porque já estávamos prestes a gozar e não ficava tudo muito claro, se era sonho, se era a morte. Raramente conseguia ter forças ou lógica para falar qualquer frase inteligível e, de qualquer forma, eu estava concentrado demais na minha ereção para entender outra coisa que não meu próprio corpo e logo sua voz aparecia em espasmos, talvez porque substituída pelo seu corpo uma vez desperto. Eu a fodia sempre num silêncio monástico, prendendo a respiração por minutos longos. Meu grande xodó eram seus olhos buscando a mim no breu do quarto.

Pensava nessa reminiscências enquanto ela, agarrada ao travesseiro, respirava natimorta. Havia sido um dia duro e eu agora estava ausente dentro de minha própria casa, diante de meu próprio corpo. Tirei as roupas para tomar banho, o pau duro, a boca alcoolizada, os passos turvos e me abaixei para dar um beijo no ombro desnudo, no espaço entre o cabelo e a coberta e o céu e então ouvi ela lamentar, sonolenta, "Estou tão cansada" e uma de suas mãos me acariciou o rosto e percorreu o tórax e agarrou o falo. O pau duro.

Nidia então fez-se manhã em plena madrugada. Adorava meu pau duro.

Segunda-feira, Novembro 20, 2006

Rascunho

Quando levantei da cama, não havia mais nada. Nada a declarar, nada a se fazer, nada que eu pudesse recolher ou furtar. Quis fechar os olhos para ver se as coisas voltavam ao normal numa outra vez que os abrisse, e fechei mesmo, mas continuava a ausência em minhas pupilas quando tornei a abrir a vista e então saí que poderia me atrasar.

O dia ventava, mas o sol estava lá, impaciente. Cheio de luz para deixar claro meu vazio pelas ruas, os passageiros nos coletivos vendo através de mim, as crianças de rua jogando bolas de papel através do meu ocaso, namorados atravessando de mãos dadas minha ausência. Eu caminhava inerte porque assim tinha de ser e eu de fato o era, havia o mundo e eu dentro dele e outras pessoas para as quais eu simplesmente não existia.

Eu atravessava as ruas e olhava as saias das moças, mesmo atrasado. Nenhuma delas me sorria e algumas gostariam de me ameaçar pelo desacato, decerto poucas ameaçariam fingidas para que eu reparasse noutros bordados de sua prenda e lhes segurasse o pulso e lhes roçasse a fúria em lábios e palpitações, mas estou certo de que eram poucas. Eu não era esse homem de despertar tanta fúria nas mulheres, eis aí uma grande frustração pra qualquer homem que se preze.

Cruzei a última esquina e logo o porteiro me cumprimentou, o mesmo sorriso, o mesmo bigode falho numa das pontas, os mesmo dentes necessitados de flúor e cálcio. Não havia me atrasado e ainda possuía dez andares a escalar. Dentro do prédio, o ar-condicionado me isolaria da luz e do calor e eu seria ainda mais inexistente, uma peça dentro de um organograma.

O primeiro dia sem ela não seria nada fácil. Ela levara quem eu gostava de ser junto das coisas na mala. Só me restou aproveitar um rascunho que achei perdido entre os lençóis.

Quarta-feira, Novembro 08, 2006

Ouça no volume máximo

"... the last great musical match since Dylan met The Beatles with some pot in his pocket." (Rolling Stone magazine, november 2006)

Support your local rock'n'roll star.

Terça-feira, Outubro 31, 2006

Sorry, periferia

Isso é que é globalização. Votos fraudados na Flórida matam crianças em Bagdá. E tem gente que acha certo.

Quinta-feira, Outubro 26, 2006

XII

O telefone tocou uma vez. Ignorei. Na segunda, eu estava numa outra chamada conversando com um secretário do estado. Na terceira, tinha ido ao banheiro. Na quarta, alguém da redação me entregou o celular em mãos quando eu já me preparava para atender outra ligação do palácio do governo. Um dos secretários havia sido pego com a mão no meio da merda, havia dado no noticiário da televisão no dia anterior e os jornais da cidade agora procuravam mais coisas. Ninguém queria declarar nada e todos suspiravam a desgraça em off. "Este governo está podre, meu filho", ouvi de um deputado governista. Não pude publicar.

Era Luana e chorava. Não conseguia completar as frases. Disse que estava no trabalho, pedi calma, não estava entendendo. "Eu preciso te ver" ela disse naquele vendaval de choro, eu entendi que ela precisava me ver naquele instante. Falei pra ela me encontrar na praça do Relógio, que era perto do palácio do governo. Ela morava perto da Cidade Velha, chegaria lá sem maiores dificuldades. Disse que iria pessoalmente tentar arrancar alguma declaração do governo sobre o escândalo e me mandei da redação.

Havia aquele medo em mim permanente de Luana chegar à verdade sobre mim. Mentiroso. Adúltero. Cínico. O medo de como ela iria reagir, o medo de saber que eu era culpado pelas minhas ações. O medo de como seria a minha reação diante de minhas próprias faltas passadas a limpo. Coisas da vida, da minha vida, da minha cidade.

O carro da redação não demorou a chegar no palácio do governo. O reino da Dinamarca papa-chibé apodrecia a olhos vistos, homens de ternos esbaforidos entravam e saíam. Cinegrafistas e fotógrafos estavam a postos, alguns mais sábios no boteco próximo, bebericavam e sorriam. Luana estava perto de uma árvore, tentando me localizar e fui ao encontro dela depois de cumprimentar o Rogério, companheiro de redação. Ele também só obtivera novidades em off. Luana correu e me abraçou, tremia um pouco.

"Diga que me ama" ela pediu, "Diga que ama", pediu outra vez. "Te amo", não vacilei. Era a mais pura verdade, talvez a única verdade dita em voz alta naquela hora por aquela praça. Éramos únicos naquele instante, nervosos, apressados e verdadeiros. E em meio às nuvens que já carregavam o próximo temporal e o cheiro do Ver-O-Pêso, Luana finalmente sentenciou. "Já é o segundo mês que o sangue não vem". Dois meses. Não consegui conter uma ereção de pânico.

"Talvez ele não seja teu, amor", ela terminou e as lágrimas voltaram. Minha ereção cresceu. Abracei Luana como jamais pude imaginar que faria.

Talvez seja, meu bem, talvez seja.

Segunda-feira, Outubro 23, 2006

Je vous salue, Marie

Ela pode não ser uma Josilene Fischberg ou uma Mônica Silva, mas chega perto.

Domingo, Outubro 22, 2006

Tristeza, retorno e um sorriso no fim

O bom de não se conseguir dormir quando se está triste é que surgem boas idéias na mente. O ruim, é óbvio. Eu queria, e queria mesmo, ter a capacidade de encostar a cabeça e dormir a qualquer hora, com a facilidade dos anjos. Depois de uma crise pessoal, bastaria fechar os olhos que o mundo real daria lugar a uma viagem fantástica a universos oníricos, onde eu poderia até voar. Quanto aterrissasse ou acordasse, os percalços estariam uma noite ou um pouso atrás.

Oká, como proposto na primeira linha deste texto, não quero perder tempo escrevendo sobre as desgraças da soma da tristeza com a insônia, mas, sim, sobre suas vantagens. Eu sou jornalista, como alguns devem saber. Existe uma coisa, no jornalismo, chamada lide, que nada mais é que a introdução de uma matéria. "Fulano foi morto em casa, ontem à tarde, por ciclano, amante de seu avô, com duas balas na cabeça" é um exemplo de lide. A idéia é justamente resumir o que o leitor verá na matéria.

Os lides, porém, podem ser mais interessantes do que um simples resumo e é aí onde mora o desafio: como dar alguma bossa ao lide e apresentar todas as informações básicas que ele deve ter? Vale lembrar que o limiar entre a bossa e a boçalidade é muito estreito. Resumido o assunto, vamos em frente, porque o jornalismo já me toma tempo demais no dia-a-dia para eu gastar muitas linhas com ele aqui.

Lembrei dos lides apenas para dar um exemplo. Outro dia, uma dessas noites insones de tristeza fez o favor de me dar um ótimo lide para uma matéria que minha mente estava remoendo há dias e cujo prazo de entrega terminava na manhã seguinte. No meu caso, não ter um lide é ainda mais grave porque não consigo escrever o resto da matéria. Sem uma introdução definida - e, em conseqüência, sem uma feição escolhida - não consigo adiantar a história, fazer conexões, contar causos. Eu até termino um texto com rapidez, mas necessito de um bom primeiro parágrafo para botar o trem para caminhar.

E foi nesse mesmo dia que a idéia para este texto surgiu. Já perdi as contas de quanto tempo fazia que eu não escrevia nada aqui, no Inventando Dogmas. E não é porque não houve tristeza ou alegria - as inspirações - e noites ou dias - os momentos para a escrita. Aconteceram, garanto. Mas acho que fazia tempo que a noite e a tristeza não se encontravam com tanta intensidade como na semana passada. Fazia tempo que escrever não parecia ser a única solução para meus problemas.

Pronto, portanto, existe uma vantagem em se ficar triste. Principalmente quando à noite, principalmente quando insone. Achei meu lide, escrevi um post razoavelmente decente para o blog e me lembrei que existe uma agradável atividade para passar o tempo enquanto não pego no sono. Mas tem uma coisa a mais que talvez não tenha dado para perceber apenas com o que escrevi até aqui. Vale explicar que tristeza, insônia, bom lide e post, nessa ordem, me agraciaram com um bônus.

Depois de fazer tudo isso - e, provavelmente, por causa dessas coisas -, eu chego ao fim sorrindo. É um sorriso com os olhos marejados, lógico, mas é um sorriso. E, tenho que confessar, ficar triste me serviu para um monte de coisa, mas sorrir... sorrir é bom para caralho.

Quinta-feira, Setembro 21, 2006

Sei que é putaria ficar meses sem escrever e reaparecer apenas com um link. Ainda mais um link sobre putaria...

Mas é que esse link tem tudo a ver com nosso blog:

http://www.asstr.org/~Kristen/learning/face.htm

Sábado, Agosto 05, 2006

Primeiro mês

Jane não sabia o que fazer. Porque não havia mais nada a ser feito e ela não sabia esperar. As horas demoram a passar para certas pessoas, pessoas como Jane que róem unhas nos trens, impacientam nas filas dos bancos, do leite, do pão. Jane não sabia o que fazer diante de tanto amor.

Não, não estamos tratando de romantismo barato. Estamos tratando do côncavo e do convexo, get it on, dolce far niente. Jane olhava o calendário, dia 17 de maio. Dali a um par de dias faria um mês e no dia 17 de junho já seriam dois os meses em que ela talvez estaria fora da regra. Estaria grávida. Jane palpitava em suspiros e excitação. Jane sempre quis ser mãe, o problema era o Mário, que nunca quis ser pai.

Mário este que sumiu diante de tanto amor.

Ele surgiu no início da festa, reapareceu quando a bebida estava prestes a faltar e na hora da valsa, se pôs disponível, olhar na pista, copo na mesa, estrelas no céu. Jane, já sabemos, não era de esperar e fez a hora acontecer. Mário concedeu a dança, uma carona e subiu porque a escada àquela hora era meio deserta, e Jane não estava certa de desafiar os lances vertiginosos com seu vestido longo e o cansaço do dia e da festa - e algumas taças de espumante.

Jane atacou Mário diante da porta ainda fechada. Planejou tudo quando a bebida ameaçou faltar. Um vizinho apareceu e reclamou do barulho e, logo em seguida, da indecência, da falta de respeito, da corrosão dos valores. Mário pediu desculpas enquanto ela girava a chave na fechadura, o riso mal-contido, a maquiagem borrada. Mário desconfiou e achou melhor tentar outro dia, talvez ela apenas estivesse bêbada e ele não gostava de interpretar o papel. Antes de terminar as desculpas, sentiu o roçar de dentes em sua glande e fez-se o homem que Jane desejou por algumas horas.

Mário não dormiu. Na verdade, esperou Jane dormir, sibilar e se pôs para fora daquele apartamento. Nas outras quatro vezes, apesar de diferentes prólogos, encenou o mesmo final. Jane estava apaixonada na manhã de 17 de abril. Mário, não sei, não deu para descobrir. Ao fechar a braguilha de seus jeans, calçou por instinto os sapatos enquanto as mãos buscavam seus Luckies no bolso do casaco. Foi quando percebeu que os havia deixado no porta-luvas do carro.

O velho truque de deixar os cigarros no porta-luvas do carro jamais falhou.

Sexta-feira, Julho 07, 2006

Crônica do grande amor

Esta crônica do grande amor nasce sem saber até onde vai, como todo amor que se preze, grande, pequeno, incerto ou tímido. Mas nasce baseada na alegria e na esperança de todo amor, cego, surdo, mudo ou manco. Porque o autor, sim, este defunto autor, este amigo do Andy (e da Josy), vejam vocês, quer falar do amor e do sorriso e inventar uns dogmas coloridos e risonhos.

O amor nos rouba as palavras e nos deixa sem saber como o escrever plenamente. Ficamos bobos. Sonhamos acordados. Abusamos dos clichês, dos chavões, dos trocadilhos, das canções do Chico e do Marvin Gaye. O amor me fez aposentar o barbeador, o barbeiro e a escova para me sentir mais bonito, mais dela, mais alegre e menino. O amor me fez apagar cigarros e esvaziar copos.

O amor simplesmente acontece e, caros amigos, se ainda não aconteceu, não aposente seu melhor sorriso porque ele ainda vai acontecer. O amor é infalível e ponto final. Não discutam com o amor, porque ele vai chegar e invadir seu armário, cortar seu cabelo, pintar suas unhas e até mudar sua dieta. Você pode ler essas linhas e me achar bobalhão, infantil, do tipo que apostou dinheiro na Seleção do Parreira e irá votar de novo no Lula. Você não sabe de nada.

Quem sabe sou eu, apaixonado, sorridente, morrendo de saudades. Eu sei que tenho um ideal na vida, um motivo pra olhar os três lados da rua antes de atravessar, uma razão pra jogar bonito na pelada. A minha vida ficou tão simples que sorrir se tornou a única resposta. Sorrir e dizer sim. Deixar o não pra outro dia, um dia que sempre será depois de amanhã porque o amanhã é dela e ela é sim, meu sim, meu eterno sim.

Então, a André e Josy, Dani e Dudu, Alê e Gi, Maíra e Fafinha, Léo e Tati, Fonsa e Fernanda, desejo aqui que nossa crônica, escrita diariamente com desventuras e trejeitos e atalhos e desditos possa ser grande, imensa, infinita como os amores jurados e por vezes até cumpridos. Pontuada em sorrisos e beijos esquecidos, exclamada em atrasos obscuros, titulada por mentiras sinceras, nossa crônica, sim, nossa, porque também é a crônica do Godo da Silva, nossa crônica poderá ser lida em muitas páginas e telas, enquanto houver o amor e enquanto houver quem se ame.

Quarta-feira, Julho 05, 2006

Hoje, assumimos nossa vocação de colônia para torcer pelo Império. O ouro do século XXI se chama Felipão.

Terça-feira, Junho 20, 2006

Aquele sábado

Gente, eu e Josy estamos com uma coluna no portal Matrizonline. O nome é Não nos arrependemos daquele sábado e seria um prazer recebê-los lá.

Ps. para quem não sabe, Josy é a menina que substitui o Godinho enquanto ele não volta do Pará.

Terça-feira, Junho 13, 2006

Lula e Ronaldo ou Como andam nossas paixões?

O Ronaldo jogou mal na primeira partida do Brasil na Copa do Mundo no mesmo dia que uma nova pesquisa do Ibope mostrou que o Lula avança a passos largos para uma vitória no primeiro turno das eleições. Depois da "crise" (e a gente adora uma crise) na semana passada entre o presidente e o jogador, não deu para não questionar: se nem o Ronaldo foi páreo para o Lula, quem será?

Eu entendo pouquíssimo de futebol, apesar de ser um belo atacante - menos em aspectos estéticos para uns, menos em técnicos para outros. Mas é impossível não falar, pensar ou escrever sobre futebol nesta época do ano. É impossível não andar por aí, encontrar conhecidos e um perguntar "o Ronaldo está péssimo, né?". Este um, aliás, pode até mesmo ser eu.

Futebol é uma coisa que não se pode em hipótese alguma ser definida pela razão. Se Weber pensasse umas décadas a mais, ele teria, até, incluído o esporte no grupo da justiça (certo ou errado), estética (bonito ou feio) e moral (bom ou mau) entre as categorias explicadas apenas pela paixão. A razão, nesses casos, para o sociólogo, era mero instrumento, mas nunca respondia a coisa alguma.

E é assim no futebol. O que faz um time melhor do que o outro a não ser a paixão do torcedor? Jogadores são meros mecanismos para chegar à vitória e não duram para sempre. Existe um melhor time do mundo ou existe apenas aquele que ganha algumas boas partidas em uma sequência mais longa? Um exemplo da irracionalidade do futebol é a tal nação rubro-negra. O argumento de "maior torcida do mundo" é praticamente tão estúpido que poderia ser usado por qualquer equipe da terceira divisão da China. Lá, onde com certeza há bem menos times e bem mais torcedores do que aqui, qualquer timeco tem uma torcida mais extensa do que Flamengo, Corinthias ou Vasco.

Já com a política, as opções deveriam ser outras. Existem mecanismos puramente racionais para definir a capacidade de um político. Existem afinidades e interesses em determinada proposta que nos deveriam atrair para determinado candidato. Mas no Brasil as coisas não são tão simples. A discussão política por muitas vezes - quase todas, dizem os mais céticos - começa e acaba em paixões.

Até mesmo aqueles programas de governo que aparentam obter algum resultado para parcela da população, como é o caso deste Bolsa Família, são discutidos no campo da paixão e não da razão.

Assistencialismo é uma acusação típica da oposição em discursos ásperos contra o presidente, mas ninguém me explica o que não seria um programa assistencialista (o que é mais assistencialista, dar comida por voto ou aprovar emendas na lei de biosegurança por financiamento de campanha?). Outra acusação é o de populista, mas tenho dificuldades incríveis em achar na história um governo que não tenha sido "populista" (qual a diferença entre querer agradar classes sociais mais baixas e agradar banqueiros? e sem essa de esclarecimento, por favor).

No caso do viés governista, o Bolsa Família é sempre citado como uma vitória de décadas de injustiça de exclusão social. Apesar de exclusão social e décadas poderem ser definas pela razão, injustiça não pode. Falar sobre o que o Bolsa Família pode proporcionar a longo prazo para o país, ninguém fala. Ficam no sentimentalismo de que a fome está sendo erradicada do Brasil. Importante lembrar que este mérito, o da erradicação da fome, parece-me inquestionável, portanto questiono apenas o discurso político.

Assim, política e futebol, no Brasil, acabam tendo sentidos semelhantes: conflitos entre paixões. Quando uma se mistura com a outra, então, como foi o caso do mal-entendido entre Ronaldo e Lula, a briga aflora ainda mais. No dia seguinte da troca de farpas (muito mais do jogador do que do presidente), os principais jornais do país trouxeram em suas seções de cartas depoimentos de leitores indignados com um ou com outro.

O lema era, numa mistura exagerada de paixões: vamos reagir, vamos às ruas brigar pela honra do presidente ou pelo talento do jogador. Até fomos de certa forma, e um ou outro que encontro por aí pergunta "o Ronaldo está péssimo, né?". Gol do presidente. Se barrarem o jogador e ainda assim o Brasil for hexacampeão, aí sim ninguém mais consegue tirar a bi-eleição. Ninguém consegue entender mesmo as paixões dos brasileiros.

Quarta-feira, Maio 31, 2006

Erros

Era a 745a vez que o casal conversava e ela foi direta ao definir o relacionamento como findo, a partir de uma lógica simples, que não envolvia outras pessoas além deles dois, como devem terminar mesmo os relacionamentos.

- Você foi o erro mais sincero que eu cometi. Talvez o melhor, talvez ainda melhor que grande parte dos acertos, mas ainda assim um erro - disse Carolina.

Julio gaguejou. Ela tentou de novo:

- Não quero que você chore, nem lamente. Não se lamenta o fim de um erro e tenho certeza que você também considera que tudo tenha sido um erro. Espero que você também veja o erro da melhor forma possível e se recorde bem de nosso relacionamento no decorrer de sua vida. Espero que você tenha as melhores lembranças dele. Apesar de um erro e apesar de ter trazido problemas para nossas vidas de certa forma, sei que houve momentos válidos que farão de mim e de você pessoas melhores.

Pedir para conter o choro é o mesmo que pedir para chorar e ele, não desvirtuando lógica alguma, chorou.

- Pare, Julio, como disse, não se deve chorar pelo ponto final posto depois de um erro. Ele, o erro, não pode durar para sempre, sabemos disso. Lembra quando você me escreveu que mesmo que eu fosse um erro, eu seria o erro mais correto que você já teria realizado? Lembra que eu respondi que o perigo de se cometer um erro com consciência era que este nunca duraria para sempre, independentemente das boas intenções do erro. Em algum momento, o erro fica pesado demais para ser carregado por longas distâncias.

Ele se conteve, enxugou as lágrimas, levantou a cabeça.

- Além de tudo, nosso amizade vai restar e esta nunca consideraremos ter sido um erro. Uma boa amizade, mesmo atrelada a um erro, não pode ser considerada um erro. Aprendemos coisas juntos e vamos lembrar para sempre desse aprendizado. Mesmo que não lembremos com consciência um do outro, o que aprendemos juntos estará em você e estará em mim. Quando falarmos "eu te amo" novamente, um pouco do nosso amor, da forma que aprendemos a falar esse "eu te amo" estará lá. Nosso sentimento vai sobreviver nestas palavras, mesmo que elas não sejam mais dedicadas de mim para você ou de você para mim.

Ele não falou. Virou-se e foi embora. Encarava o erro de outra forma.

Sábado, Maio 06, 2006

Eloísa

Senti firmeza em Eloísa assim que botei meus olhos nela. Assim, sem dramas e apresentações. Celso foi logo nos apresentando, meu grande amigo Celso, uma vasta cabeleira made in Japan. "Essa é Eloísa, minha vizinha." Estavam lá jogando conversa e cigarros fora, eu resolvi passar no apartamento dele para ouvir um CD que ele ficou me recomendando por mais ou menos um mês.

Ela de vestido branco e óculos, descalça, sorriso. Ele me apresentou, eu era "Leandro, amigo, veio aqui ouvir aquele CD que te falei, dos Strings". Aí ele se levantou e foi catar o disco no quarto e ficamos os dois na sala, ela acendendo outro cigarro, eu de pé, calças jeans, sapatos, camisa de trabalho, bolsa de trabalho, celular na mão. Perguntei a ela se tinha cerveja, ela pediu uma. Fui buscar na geladeira e assim começamos.

Quando voltei, os Strings já ganhavam a sala através das caixas de som, pareciam bons os Strings, comentei. Deixei meus pertences no chão perto do sofá e me sentei perto, junto da minha cerveja, logo após entregar outra para Eloísa e fazer as honras de abrir uma terceira latinha para Celso. Conhecia Celso de anos atrás, de uma fila para ingressos para um festival de cinema mexicano. Os filmes não eram grande coisa, mas em dois deles Salma Hayek fazia com os atores e as câmeras tudo o que gostaríamos de fazer com ela. Celso e eu fomos para a fila com camisas da mesma banda (Molotov) e ele puxou papo comigo por conta disso. Meses depois, fomos colegas de turma num curso de espanhol e aí ficamos amigos.

"Salma Hayek nos uniu, Eloísa", sentenciei, fazendo um brinde. Puxei um cigarro do bolso da camisa e ela se ofereceu com o isqueiro. Neste intante, fui flechado e traguei fundo o momento, o sorriso, os olhos castanhos turvos, os caracóis, as alcinhas alvas sustentando o vestido e contornando os ombros. "O Celso me fez escutar tanto essa banda que já canto no chuveiro", ela disse sorrindo. Aí ela perguntou o que eu fazia, onde morava. Respondi que morava no outro quarteirão, de onde saía toda manhã para retornar só de noite após dar expediente como assessor de comunicação no Instituto Nacional do Coração, "um centro de referência mundial em corações partidos e afins".

Eloísa era professora e queria estudar música. Mas seu sonho era ser bailarina. "Quando tinha sete anos quebei o pé andando de bicicleta e nunca mais consegui executar um demi-plié decente", aí ela levantou do sofá e nos mostrou seu demi-plié indecente. Julguei mais-que-perfeito, e pelo que pude averiguar no olhar de Celso, ele também. "Essas professoras de balé não sabem de nada", Celso aferiu e todos concordamos. Mais um brinde e Celso foi fazer as honras de trazer mais um trio de latinhas. "Bacana conhecer você, o Celso me fala de vocês às vezes", Eloísa confessou e desta vez eu acendi os cigarros.

Celso era um dos meus melhores amigos, ia falando, e começamos a desencavar algumas histórias vividas parceiramente, eu e ele. Eloísa apenas bebia, fumava e sorria. Talvez houvesse sido um dia duro que terminava surpreendentemente leve, com dois amigos compartilhando um bem-estar com ela, pelo prazer de sorrir ou simplesmente ser. Talvez ela estivesse interessada em algo que ia além das palavras e dos gestos e daquelas paredes. Talvez ela apenas precisasse daquele sorriso para seguir tentando não chorar, por mais bonita que ela fosse, aquela cidade não poupava nada e nos exigia demais a cada cruzamento. Os Strings estavam esquecidos no CD player, em repetição.

As latinhas secaram e nos vimos cansados, apesar de contentes por estrmos juntos. Eloísa levantou primeiro, despedindo-se de Celso com um beijo e plantou-se de frente pra mim, indicando que eu também deveria me despedir dela. Levantei e disse que também estava de partida e peguei meus pertences e fomos. Celso combinou de passar no meu apartamento na tarde seguinte para vermos um jogo. Fechou a porta e de repente estávamos eu e Eloísa e a escada para o andar de cima onde ela morava.

Os corpos ficaram ali parados, suspensos do tempo e da dor. Eloísa era linda demais daquele jeito para ser verdade. "Outro dia" ela disse, me deu beijo furta-cor na bochecha, "outro dia você passa aqui e me devolve o isqueiro que esqueci no seu bolso". Subiu as escadas e eu desci as minhas.

Na rua, apalpei o bolso da camisa e o isqueiro dela estava lá. Ao lado de um sorriso, um beijo e um vestido branco, leve feito o sono que sentia em minhas vértebras.

Terça-feira, Maio 02, 2006

O bar dos meus sonhos

Quando entrei no bar, tocava "Heart of a Glass", do Blondie. É aquele tipo de música que meu inglês sofrível não ajuda a entender, mas sei que, apesar do ritmo alegre, fala de coisas tristes. Alguma coisa do tipo "once I had a love and it was a gas, soon turned out to be a pain in the ass". Fazendo analogia, eu também já tivera um amor turbinado que se transformou com o tempo numa "dor no traseiro", numa tradução porca. E sem alusões homossexuais, por favor.

Entrar num bar sempre teve dois vieses para mim: diversão, quando acompanhado por amigos, ou solidão, quando só. Tudo bem, às vezes os amigos me acompanhavam na segunda opção, mas era raro. Sou praticamente um sociopata quando tenho problemas pessoais me atormentando. Além de me tornar insuportável.

Mas essa afirmação de ir para um bar sozinho em busca de solidão é mentirosa, de certa forma. Nunca se fica solitário num bar, a não ser que se tenha a chave e não se permita que os empregados entrem. Há sempre um garçom lá, disposto a contar algum causo, alguma piada ou a perguntar se a vida não melhoraria com mais um chope. No bar que eu freqüentava, Zé, o garçom, foi logo oferecendo: "Vai um chope para descer os problemas goela abaixo?". Não se vai atrás de solidão num bar, não mesmo. É perdição o motivo da ida.

Aceitei o chope, como sempre. Mas aceitei a contragosto porque exatamente o que eu não buscava naquele dia era enfiar meus problemas goela abaixo. Não mais. "Sempre" varri os percalços cotidianos para debaixo do carpete e o acúmulo de poeira estava incomodando minha asma mal tratada. Entrei no bar para provar para mim mesmo que o "sempre" era tempo demais, até mesmo para mim, crente toda a vida. Estava na hora de encerrar aquele "sempre" e tomar alguma atitude. Estava na hora de alterar o rumo das coisas, inverter a ordem e ascender os problemas goela acima.

Um bar serve, como poucos lugares no mundo, para desvirtuar o tempo e me ajudar a entender que o mundo secular é muito menos interessante que o mundo dos dogmas. Se eu devia recomeçar sem olhar para trás ou pular uma etapa e prosseguir em frente, era ali o lugar ideal para descobrir. Eu sabia apenas que o "sempre" precisava ser desencaixado do meu futuro. Aquela perspectiva de que as coisas não mudariam definitivamente não fazia mais sentido.

Assim, aceitei o chope, mas fiz questão de dizer para o garçom: "Zé, hoje os problemas vão ficar aqui, junto com a gorjeta. Ou isso, ou não vou deixar gorjeta". Ele riu, provavelmente compreendendo melhor do que eu o que aquilo poderia dizer. Ele já deve ter ouvido coisas parecidas de outros duzentos bêbados antes de mim.

Depois do quinto chope, começou a tocar "More than this", do Bryan Ferry, "It was fun for a while, there was no way of knowing, like dream in the night, who can say where we´re going". É, o bar dos meus sonhos é assim: uma solução para meus problemas com um rockzinho simpático como trilha sonora. Poderia haver mulheres dançando nuas no balcão, mas nem os sonhos são perfeitos. E, na verdade, eu só queria uma única mulher nua dançando no balcão, num bar sem garçons, com dúzias de bolachas e chopes sobre a mesa e as portas fechadas. Era somente ela que eu imaginava no bar. Mas ela não estava lá, nem nua, nem dançando. Sonhos e bares não são mesmo perfeitos.

Domingo, Abril 30, 2006

Alguém precisava falar

Roubou as palavras da minha boca.

Quarta-feira, Abril 19, 2006

Conto antes de acordar

A última das estrelas morreu no céu. Meus olhos cinzentos na tevê e um filme demasiado pornográfico para ser sexo de verdade. Na rede, uma Lila morena e dorminhoca, nua e santa demais para aquele quarto. A atriz montava no falo e berrava a cada contração de seus quadris. Eu não acreditava em nada. O que me enchia de vontade de sexo era Lila, mas Lila precisava dormir, como eu insistia em não fazer.

A última das estrelas morreu em vão. Ninguém iria chorar por ela, pelo seu brilho agora breu. Lila não iria acordar por uma estrela morta anos-luz atrás. Lila gostava das coisas quando vivas, dos homens quando sorridentes. Eu deitado na cama sozinho era um homem morto, bem o sabia. Lila dormia em paz porque não sabia, mas eu era um homem jurado de morte. Tente dormir podendo não acordar.

A última das estrelas não vai nunca saber o que é uma semana sem conseguir fechar os olhos. Nem eu sabia direito, depois do segundo dia, tudo virou mancha e talvez. Lila tentava me resgatar e me colocar para ninar em seu colo. Depois do quarto dia apelei para bolinhas e virei delírio. Em casa, vidrado, a magnun debaixo do travesseiro. Será que alcalço o gatilho a tempo? A mão é fugaz e tenho a porta da cozinha logo na mira. O revólver desliza até Lila, e até a noite.

A última das estrelas é à prova de balas. Eu não sou. Há uma bala fora deste apartamento me aguardando e Lila não sabe disso. O revólver voltou para debaixo do travesseiro e a mulher suga com a força da terra a seus pés todo o sêmem que o homem da tv tem a lhe gozar. Enganei o homem que quer me matar, enganei sua esposa e engano Lila. Lila desperta, me vê morto na cama, cinza. Desliza até alcançar minha boca. E então ressucito.

A última das estrelas queimou tudo o que pôde. Lila vai me consumir por todos os seus poros. É uma questão de tempo para que ela vença a bala que me aguarda. Quando grito, ela morde. Respiro, transpiro. Não morri ainda. Não posso fechar os olhos.

Segunda-feira, Abril 10, 2006

Conto antes de dormir

Falta de sono, um teclado e um disco do Velvet na vitrola em conjunção geram a vontade de escrever um conto. Femme Fatale na voz da Nico bate no coração, enquanto Heroin na voz do Lou Reed entra na veia. Os versos parecem dialogar e eu fico voltando de uma canção para a outra, ouvindo "I don't know where I'm going" e "Here she comes, you better watch your step", e achando que tudo se trata do mesmo assunto.

Tomo uma dose de whisky e penso em acender um cigarro, mas me lembro que parei de fumar. Quero trepar, mas não tem ninguém por perto e não tenho paciência para sair de casa e pagar uma prostituta. Essa rotina de drogas e sexo cansa, principalmente quando é realizada com as mesmas drogas e com um sexo boçal, pago com dinheiro e favores.

Quero falar com meu filho, mas está tarde para telefonar. Não quero aumentar o ódio de sua mãe por mim, mesmo sabendo que seria divertido provocar algum ciúme no imbecil do seu novo marido. Ele é um troglodita quase inofensivo de tão mobral, e arquiteto por formação. De tão estúpido, duvido que ele saiba explicar o significado de um ângulo de 90 graus - nenhuma formulação é mais interessante do que a do ângulo oriundo de duas retas que se encontram num único ponto e que se afastam com a maior velocidade possível. É daqueles caras que ficam horas se masturbando com imagens de meninas de olhos grandes, pele clara e seios pequenos, baixadas dos piores mangás que se encontram na internet.

Ela o conheceu meses depois de me deixar e levar nosso filho embora. Digo para todos que choro à noite por não ter querido brigar pela guarda na Justiça, o que não é verdade. Sou péssimo pai e não pretendo ser um bom pai. Estou velho para mudanças.

Quando adolescente, considerava-me marxista e não pensava em filhos, prostitutas ou heroína. Eu dizia lutar pela superação da classe operária sobre a burguesia exploradora, através da formação de um estado socialista. Na verdade, nunca fiz nada além de ir numa ou noutra passeada de partidos de esquerda, mas vou contar para meu filho, depois que ele entender a importância da luta política, que eu fui um revolucionário. Quando ele crescer, vai sacar que tudo isso não passa de balela para justificar uns serem mais fudidos do que os outros. Só que tenho certeza que ele vai repassar minha história para meu neto, perpetuando minha imagem heróica por pelo menos duas gerações.

Escrever sobre gerações, falta de sono e todo o resto que já relatei me fazem pensar na morte, além de querer escrever um conto. Poderia falar dela neste conto, falar de como se joga xadrez com a dona todos os dias, num jogo lento e finito, sem possibilidade de empate. Ex-mulher, filho e o mobral do punheteiro de mangás são todos peões. Nunca movimentei uma das peças da primeira linha. E, também, para falar a verdade, nunca me considerei jogando xadrez com a morte para escrever sobre isso, apesar de já ter assistido ao filme do Bergman.

Terça-feira, Abril 04, 2006

Andy, you're a star

Foi uma amiga que me falou da música "Andy, you're a star", do The Killers. É bacaninha apesar do tom meio gótico. Bauhaus e Siouxsie & The Banshees influenciaram na música, tenho certeza.

Eu não tenho nada de estrela, mas, vai lá, não é qualquer dia que se ouve uma canção com nosso nome. E essa é a mais legal desde Man on the moon. Portanto, divirtam-se:

Andy, You're A Star

On the field I remember you were incredible
Hey shut up, hey shut up, yeah
On the field I remember you were incredible
Hey shut up, hey shut up, yeah
On the match with the boys, you think you're all alone
With the pain that you drain from love
In a car with a girl, promise me she's not your world
Cause Andy, you're a star

Leave your number on the locker and I'll give you a call
Hey shut up, hey shut up, yeah
Leave your legacy in gold on the plaques that line the hall
Hey shut up, hey shut up, yeah

On the streets, such a sweet face jumping in town
In the staff when the verdict is in
In a car with a girl, promise me she's not your world
Cause Andy, you're a star
In nobody's eyes but mine
Andy, you're a star
In nobody's eyes but mine
Andy, you're a star
In nobody's eyes
In nobody's eyes but mine

Terça-feira, Março 28, 2006

Prazer em conhecê-lo

Eu já pensei em ser padre. Isso foi há muito tempo, eu sei, mas por pouco, muito pouco, me livrei da batina. Foi num show de uma banda cover de Beatles que enxerguei as trevas e tudo de bom que poderia reluzir dela. A banda não era boa e eu nem sou lá muito fã de Beatles, mas Here, There and Everywhere é bonitinha demais para não se deixar impressionar: "Here, making each day of the year/ Changing my life with a wave of her hand/ Nobody can deny that there's something there".

É lógico que show, banda e música apenas decretaram o fim de um processo que já vinha se acelerando havia algum tempo. Minhas dúvidas não surgiram ali, naquele show. Não mesmo. Se ainda estivesse completamente crente de minha vida religiosa, diria que a canção é um exemplo da onipresença de Deus. Aqui, acolá, em qualquer lugar. Como são ridículos os religiosos, querendo associar qualquer coisa no mundo a Deus.

Mas eu acredito em Deus e Ele não teve nada a ver com minha desistência. Foi o demônio o principal responsável. Mas o demônio agiu da maneira menos óbvia, irônica até, ao provocar questionamentos na minha fé. Numa reunião do meu grupo católico, insitiram que ele, o capeta, existia mesmo, e estava entre nós. Disseram, até, que músicas de Led Zeppelin e Xuxa traziam mensagens subliminares. Ao aprender que o demônio sentava ao lado, questionei, pela primeira vez, aquele catolicismo cego que eu pregava. Dali em diante, segui ladeira abaixo e rumo ao horizonte.

Depois de largar completamente a Igreja, tive uma fase - curta - de completa negação, onde meus desejos mais primitivos eram movidos por súcubos e pela vontade de trepar com uma freira. Isso nunca aconteceu, mas de repente pode ser um ensejo para uma boa história. Vocês sabem, ando com uma baita dificuldade em voltar a escrever boa ficção - se é que já escrevi boa ficção algum dia. Talvez eu deva apelar para o demônio. Talvez para Deus. Só acho importante lembrar que até mesmo nos tempos de Igreja eu já preferia os Stones e sua "Sympathy for the Devil", aos iê iê iês dos Beatles.

Segunda-feira, Março 20, 2006

O pior dia da minha vida

Às vezes a vida pode ser uma merda e às vezes ela pode ser ainda pior. De longe esta segunda-feira foi o pior dia da minha vida. Houve dias piores, lógico, mas este é o que eu consigo lembrar agora. Portanto, se, para este texto ficar ainda mais dramático, precisamos de um superlativo, deixem-me associá-lo com esta segunda-feira, dia 20 de março.

Acordei cedo, fui para o trabalho cedo, tirei sangue para uma droga de exame periódico que somos obrigados a fazer e que eu sempre esqueço. Mais exemplar impossível. Era daqueles dias que eu realmente tinha muito trabalho a fazer, tinha duas matérias grandes para fechar. Não parei um minuto.

Mas as coisas começaram a acontecer fora do planejado. Até que meu humor não estava dos piores pela manhã, mas pensamentos ruins vieram à tona e coisas ruins foram ditas e escritas. A coisa toda, então, começou a degringolar. O bom humor e disposição habituais sumiram. Mesmo assim procurei reclamar o mínimo possível das coisas, tentei evitar que um dia ruim se transformasse numa catástrofe.

Mas o dia fez isso por mim, sem que eu pedisse. No momento que me falaram que eu estava com uma cara nunca antes vista, eu deveria ter percebido que era obrigação ir para casa. Mas resolvi bater uma bola, para tentar algum conforto. A pelada foi até boa e fiz uns gols.

Só que o pneu traseiro do meu carro furou logo depois. Parei no escuro, à noite, no meio da Pacheco Leão para trocar. Me sujei todo e limpei com a blusa molhada do suor do futebol. Sujei o rosto todo mas só reparei nisso horas depois, quando cheguei em casa.

Na Barra, policias me pararam numa blitz e constataram que eu não tinha feito a vistoria de 2005. Pausa: não fiz porque não tive dinheiro para pagar as meia-dúzias de multas recebidas por trafegar a 72 km/h às 3h da madruga em pistas onde a velocidade máxima permitida é de 60 km/h. As multas foram pagas na semana passada por mamãe, como presente de aniversário. E eu pretendia marcar a vistoria para a semana que vem.

Expliquei tudo isso para os guardas, mas mesmo assim eles quiseram rebocar meu carro. Argumentei, mas eles foram irredutíveis. Peguei um táxi, paguei R$ 30 para chegar em casa e hoje, terça-feira, vou ter que ir no Centro, no prédio do Detran, antes de retirar o carro no depósito da Gardênia Azul. E eu não tenho a menor idéia de onde fica a Gardênia Azul. Isso, sem contar que tenho que estar às 13h30m na casa do Tunga, artista plástico, para uma entrevista. E que às 19h, eu tenho a primeira aula da pós em sociologia política.

A vida pode ser pior? É claro que pode. Quando cheguei em casa, não havia ligação, nem mesmo e-mail, para me confortar. Nada.

Resumindo: acordei cedo, tirei sangue, trabalhei demais, soube de coisas que definitivamente eu não queria que acontecessem, tive que trocar o pneu e logo depois rebocaram meu carro. Ah, eu fiquei mais ou menos trinta minutos sujo, calçando uma chuteira e usando um short laranja florido (não tomei banho porque estava sem toalha) no meio da Avenida das Américas, discutindo com policiais.

Eu não costumo fazer essas coisas assim, apenas por percalços rotineiros da vida, mas se existiu um dia que me deu vontade de chorar, este dia foi ontem. O pior de tudo, gente, é que o domingo também não foi dos melhores e que a semana está apenas começando. E, acreditem, o fim de semana promete muito mais.

Terça-feira, Março 07, 2006

Como se chama o vão entre a perna e a vulva?

Eu tenho que escrever pornografia, eu tenho que escrever pornografia, eu tenho que escrever pornografia. Há dois posts, prometi que escreveria pornografia puramente pela diversão do tema. Mas não está fácil.

Depois de algum tempo escrevendo eventualmente num blog, aprendi que textos afetam sentimentos tanto quando estes afetam aqueles. É óbvio que não é fácil descrever felicidade em situações de tristeza. Mas, acreditem, textos otimistas já levantaram meu astral diversas vezes. A coisa funciona de forma simples: fico triste por algum motivo, sento em frente ao computador e crio uma história engraçadinha. É tiro e queda, melhor que Prozac.

Melhor até que sexo, pelo menos para resolver uma depressão considerada incurável. Sexo é muito bacana, lógico, mas é mecânico demais quando a cabeça não está concentrada na atividade exercida. Ambas as cabeças.

É a mesma situação ridícula do filme Munich, quando o 007 trapalhão do Mossad trepa com sua esposa enquanto imagina o atentado terrorista nos Jogos Olímpicos de 1972. Por mais que a parceira seja gostosa, fique de quatro e rebole alegremente, é impossível o sexo ser bom num momento de tristeza. É preciso resolver uma coisa, antes de se arriscar em outra. Nem mesmo um bom cunnilingus amenizaria problemas.

Mas com um texto é diferente. A atividade sexual é limitada por pudores ou limite de criatividade. Já a escrita não tem fronteiras. Todos os dias, momentos ou instantes, pode-se criar novas histórias e viajar em mundos inimagináveis. O conjunto atividade sexual, aliás, está incluído no conjunto ficção.

Assim, sai o pênis e entra a caneta; sai a vagina e entra o papel. O movimento com a caneta é praticamente sexual, considerando o prazer associado ao adjetivo erótico. Terminar um bom texto talvez não seja melhor que um orgasmo, mas dá um alívio e uma satisfação que sexo algum pode proporcionar.

Toda essa divagação foi gerada pela necessidade de se escrever um cartão de aniversário e pela dificuldade de se pensar num cartão fofo numa época que meu humor, historicamente, não é dos melhores. Um viés erótico seria uma boa opção, mas nem sempre o erotismo é bem interpretado e quase nunca fica bem no papel. Ah, sim, é possível ser fofo e erótico ao mesmo tempo, basta perder algumas linhas descrevendo como sua pele macia pode nublar a razão e fazer com que a consciência se perca em pensamentos libidinosos, condenáveis em outros tempos, mas justificáveis, até perante Deus, se considerada a beleza do vão entre sua coxa e sua vulva.

Este vão, que não sei se tem nome, é um bom exemplo de como palavras escritas podem afetar completamente as sensações de uma pessoa. Só em pensar nele, meu pênis enrijeceu e eu acabo de ter a idéia para o cartão de aniversário mais fofo que jamais escrevi. Então, mãos à obra. É que, assim como no sexo, depois de se acabar um texto, o que mais gosto de fazer é escrever outro.

Quinta-feira, Março 02, 2006

Sobre a Carolina

Conselho: num momento de tristeza, olhe para uma foto da Carolina. E, não, não vou entrar em detalhes de quem é a Carolina, para não dar chances para que algum astuto tire fotos dela por aí. Mas vou descrever a Carolina e espero não ser injusto economizando em suas qualidades.

Ela, a Carolina, tem pouco mais de um ano. Às vezes torço para que ela tenha essa idade para sempre, mas às vezes fico imaginando como ela será com dez, vinte ou trinta anos a mais. Qual imagem seria a mais aconchegante? A da criança inocente, a da adolescente instigante, a da jovem cheia de vida ou a da adulta serena?

A imagem que amenizou meus últimos momentos de tristeza foi uma foto onde Carolina está com uma carinha assustada, fofa como apenas ela consegue ser. Está do lado do primo, com a avó atrás e um terço de uma pessoa em sua extrema direita, cortada pela inabilidade do fotógrafo. Era a foto mais próxima, a que chama a atenção quando se está sentado naquela cama, por ficar na altura dos olhos de uma pessoa de 1,86 metro. Mas tenho certeza que é a única foto naquele quarto que me daria algum conforto naquele momento. Cama, quarto e momento em questão não importam mais que a foto, portanto deixo os detalhes de lado.

Quando estou triste - por qualquer motivo - procuro alguma coisa para aliviar a dor. Encarar o problema de frente, nem pensar. Prefiro dar uma relaxada para pensar no assunto e só depois tentar resolvê-lo. Nunca dá certo, mas acredito ser uma boa tática. O problema é que usualmente - às vezes propositalmente - esqueço de buscar uma solução. As coisas não são ruins 100% do tempo e há sempre algo positivo para se apegar.

A foto da Carolina, portanto, encaixa-se com perfeição nos momentos que é necessária uma lembrança do alto valor da vida. É ela, a Carolina, que me faz lembrar que o mundo pode ser muito melhor do que parece e que as pessoas podem não ser tão ruins como eu sempre pensei. Na foto, ela está com os olhos bem abertos, deixando evidente duas bolas pretas e atraentes. Sua boca também está aberta, assustada com alguma coisa que ignoro por não ter importância. Crianças são assim mesmo e se assustam com facilidade. Mas rogo praga para qualquer pessoa que faça a Carolina, aquela Carolina, se assustar com qualquer coisa. Carolina merece tranqüilidade, porque em vários momentos ela já foi responsável pela minha tranqüilidade.

O nome Carolina, aliás, é tão marcante que já foi fruto de diversas músicas, de gente que eu respeito até, como Chico e Toquinho. Mas não há Carolinas como essa, a da foto, acreditem. E eu já conheci algumas. Carolina, a da foto, possui o olhar mais magnífico que eu já vi. Assim, sou mais feliz olhando para ela. Por esta Carolina, e só por esta, eu falaria, mentiria, choraria e sorriria. E que sua foto esteja sempre em minha visão então.

Eu não me chamo Leandro

Fico impressionado como as pessoas nunca me chamam pelo meu nome. Nunca. São poucos os amigos que lembro terem se dirigido a mim como André. Talvez seja o acento na última vogal, que faz a palavra oxítona ser agressiva demais para os ouvidos. Talvez seja a origem do termo: varão, viril, másculo, do grego.

Assim, sou chamado mais pelos carinhosos Deco e Dedeco, o formal André Miranda, o gaiato Andy Foca, o provocativo Cabeça, o fofo-provocativo Cacá, o intolerável gatinho, o afetivo Miranda ou até o preferido Andy. Há, ainda, adjetivos genéricos como cara, amor, rapá, mané ou safado. É difícil lembrar de tudo e nem tudo caberia num post família.

Mas eu gosto do meu nome, apesar de achar que realmente a última sílaba é forte demais e pode dificultar a pronúncia. Só não gosto de lembrar que André rima como mané, apesar de achar - na maioria das vezes - que não tenho nada de mané.

Não ter nada de mané, porém, não me faz ser obrigatoriamente uma pessoa interessante. Houve outros Andrés na história, muito mais bacanas e charmosos do que eu. Cito, de cabeça, o Warhol, o Lloyd Weber, o Summers. E cito também o Santo, cuja cruz era em forma de X. E deve ser muita onda morrer numa cruz em forma de X.

Ah, vale lembrar que não me chamo apenas André, mas André Luiz, fato que poucos sabem. Se ninguém me chama de André, de André Luiz, então, nem Deus e o Diabo durante a partida de xadrez onde sou um peão. Mas não vou escrever agora sobre o Luiz porque nem eu estou aguentando esse egocentrismo todo. Chega de falar de mim. Acho que cheguei ao cúmulo com esse post sobre meu nome (meu consolo é estarmos no fim do carnaval e o Inventado Dogmas historicamente ter pouquíssimos acessos nessa época). Está na hora de voltar definitivamente a nossa ficção real, que é muito mais interessante do que essa realidade ficcional. Os próximos posts serão eróticos, quiçá pornográficos, prometo. Mas antes preciso de mais um post, mais um post para escrever sobre uma pessoa.

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006

Trilhas sonoras ou O que vou cantar na minha festa de aniversário?

Eu não tenho a menor idéia do que a tal Chava Alberstein canta, mas a música "Had Gadia", presente no filme Free Zone, do Amos Gitai, é bacana demais. A cena inicial do filme, aliás, é fantástica, uma das melhores que eu vi no ano passado: Natalie Portman, lindinha como ela só, chora dentro de um carro, chovendo lá fora, num close constrangedor se ela tivesse vinte anos a mais. E toca "Had Gadia" incansavelmente, um verso atrás do outro, em tom sempre crescente, cada estrofe mais acelerada e comprida que a anterior. Talvez, se deixassem tocar a música durante toda a projeção, um filme medíocre poderia até se transformar num bom filme.

Segundo o wikipedia, "Had Gadia" é uma canção tradicionalmente entoada no fim de uma festa judaica, que conta a história de um pequeno cordeiro comprado por um pai, e tudo de interessante que pode vir daí. Para evitar decepções, é melhor não conhecer a tradução, tenho certeza.

Outra canção presente em filme e que também pouco importa a tradução é "Suo Gan". Lembram do Cristian Bale correndo com aquele coro infantil no fundo em Império do Sol, do Spielberg? Não teria a mesma graça sem a "Suo Gan" lá. A música galesa fala do carinho da mãe para com o filho, com ritmo e objetivo de ninar a criança. Garanto que funciona. Eu mesmo, que há muito deixei de ser criança, volta e meia deixo "Suo Gan" tocando à noite, para pegar no sono. Raramente preciso de mais de uma audição.

Na onda de músicas fofas para crianças, nada supera "Por que te vas", de uma tal Jeanette. Também presente num filme, lógico, o ótimo Cria Cuervos, do Carlos Saura. Neste caso, porém, eu entendo a letra: Hoje na minha janela brilha o sol/ E o coração/ Fica triste contemplando a cidade/ Porque você vai. Filme e canção deveriam ser dados como exemplos em escola do bom uso do diminutivo não-depreciativo: fofinhos e lindinhos.

"Por que te vas" é tão impressionante que eu não vejo Cria Cuervos há pelo menos dez anos, mas as crianças brincando com a música ao fundo não saem da minha cabeça. Nem "Llorando" em Mulholland Drive, do Lynch, melhores música, filme, cena e diretor do que a equipe do Saura, me marcou tanto (mas eu choro lembrando que "no hay banda").

E eu acho que é justamente este o barato de uma boa canção num filme: imortalizar uma cena. Nem é necessário entender a letra. O filme é a letra que importa naquele momento. E a música, quando o editor não é bobo, cai com perfeição como trilha sonora, independentemente do que ela diz.

É assim com a gente também, não? Duvido que eu seja o único maluco que fica imaginando músicas fofas para os momentos da vida. Aliás, já até pensei numa para o meu próximo aniversário: "You Got It", do Roy Orbison. Mas eu queria como em Somente Elas, com uma Whoopi Goldberg cantando com uma voz fraca e um olhar apaixonado. Ou então eu poderia cantar. É isso, quero cantar "You Got It" na minha festa de aniversário. "Every time I hold you I begin to understand/ Everything about you tells me I?m your man/ I live my life to be with you/ No one can do the things you do".

Mas antes é apropriado que eu aprenda a cantar.

Domingo, Fevereiro 12, 2006

XI

A prática me ensinou a beber. A prática me ensinou a fumar. A prática me ensinou a foder. Ela já havia me ensinado até a escrever, mesmo sob forte ressaca e cheirando a cigarros e rum. Ninguém mais que a prática poderia ter me ensinado a mentir.

O problema da mentira é justamente a verdade que ela carrega em si. E a verdade, se não estiver nos fatos, estará nos sujeitos. Foi Paola, num telefonema após ouvir uma das minhas desculpas oficiais, quem decretou. "Você está me saindo um belo safadão". Rimos ambos. Ela, nervosa, eu, cínico. A cidade já começava a ficar pequena diante de mim dando amor a duas mulheres que me queriam mais, que não poderiam saber uma da outra, que não gostariam de descobrir que havia outras. Eu era um homem marcado em Belém. Carregava nas costas uma tatuagem inesquecível, todas comentavam assim que a viam. Luana sabia duma prima sua que havia terminado uma noite num quarto de pensão perto do centro com um carioca, moreno, de óculos que tinha uma tatuagem vistosa nas costas. A gente estava juntos já havia um par de meses, a prática me ensinava a trair.

Ela me olhava furiosa enquanto eu fazia a melhor cara de espanto para salvar nosso namoro, my own private Idaho. Nosso Belém Affair. Eu tinha medo de perder Luana e pior, jamais me perdoaria se ela deixasse de sorrir e voar naquela cidade tão pesada por minha culpa. Luana me dava uma alegria quase infantil em me amar, em ser apenas uma garota que fazia questão de dar as mãos para desfilar comigo perto da rua onde morava. Ela sabia que eu era, por bebida demais ou juízo de menos, o carioca da tatuagem que havia saído da festa com sua prima, caminhou meia quadra, alugou o pernoite na pensão e apenas fechou a porta para, ainda de pé, fodê-la contra a porta. Depois fizeram no chão. Na segunda vez no chão ela se apoiou na cama e foi o máximo que eles usaram da cama. E por fim, quando ela queimava o baseado que o homem do Rio preparou sem pressa e calado, ela gozou pelo cu olhando a cidade sob o efeito do beck apoiada na janela, ele mordendo as costas. Desabaram no chão e ali dormiram um par de horas até o interfone tocar anunciando o fim da diária.

"Claudiane me mostrou até as dentadas nas costas", Luana me odiava, "ela disse que nunca mais vai gozar daquele jeito outra vez". Ela maldizia o safado por oferecer a erva pra bichinha, a sua prima só tinha dezoito anos, mal cursava o segundo grau. Eu nada dizia, tomado pelo medo da minha voz me trair e por um pânico sincero de levá-la a atos perigosos, porque ouvir a narração pormenorizada duma foda ocorrida cerca de três meses passados causava em mim uma poderosa ereção. Lembrava de Claudiane chorando sobre mim após ter inaugurado o cu, lembrava dos meus cabelos sendo arrancados enquanto eu a fodia contra a porta, sua buceta levantada do chão pela minha língua. Quis contar tudo a Luana naquele instante, reproduzindo nela o que fizera com a prima. Era uma manhã de domingo, estávamos comendo pão e tomando nescau, havia sido uma noite morna, ela quis dormir abraçada comigo porque a tia estava no hospital. A tia, mãe de Claudiane. Naquela noite, prometi que cuidaria dela, Luana, fiz cafuné, beijei seus olhos que choravam sem escândalo. Ela percebeu pelo meu short a urgência, me apertou de leve, me deu um beijo e se virou para dormir de conchinha. Aninhou sua bunda fundamental de modo que a minha urgência ficasse bem feliz entre suas maçãs sob o lençol, sob o short, ante a sua calcinha. Usava o meu braço direito feito bicho de pelúcia e não disse boa noite, amor naquela vez. "Obrigada por me amar". Eu quase chorei.

De repente, ela desatou a rir diante da narrativa da trepada de Claudiane. Ria e me olhava. Eu não entendia nada e cada vez entendia menos. "Ela me disse que não quer mais o namorado porque ele não sabe comer o cu dela! Viciou a Claudinha, o safado!" e ria. Resolvi arriscar e acompanhei sua instantânea felicidade naquela manhã, ela era mulher mais linda do mundo quando queria. Ela jamais poderia saber que vê-la sorrindo com o pedaço de pão na mão me cortou em pedaços mil de arrependimento e tristeza e meu riso foi na verdade pranto. Ela se levantou e veio sentar no meu colo, me cobriu de beijos. E perguntou se era eu o carioca que havia viciado Claudiane em sexo anal. Você não vai me dizer que também negaria? A cozinha foi pouco para aquela manhã. O quarto foi pouco para a tarde. Ela destilava em meus ouvidos crimes que a prima a descrevera, eu os reproduzia em seu corpo. E depois tivemos que inventar mais pecados.

A prática, meu bem, a prática.

Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

Evolução

Não se espantem, este é mesmo o terceiro dogma escrito e publicado num mesmo dia. Também não me julguem achando que não tenho nada para fazer no trabalho. Não é verdade. Além de escrever bastante rápido (o que não é a mesma coisa do que escrever bastante bem), percebi que fiquei muito tempo sem atualizar isso aqui e resolvi compensar com mais de uma besteira. No caso, mais de duas.

Além disso, esta última história tem sua relevância para entender o ser-humano e para explicar como me tornei um homem evoluído. Vindo para o trabalho hoje, quase tomei um tiro. Passava por um dos túneis da Linha Amarela, andando devagar pela direita e ouvindo Chico. Conhecem "Eu te amo"? Sabem "Como, se nos amamos feito dois pagãos/Meus seios ainda estão em tuas mãos/Me explica com que cara eu vou sair"? Não é momento para se estressar, definitivamente.

Não andava como uma lesma. Estava a uns 100 km/h. E na pista da direita, repito. Mesmo assim, um imbecil grudou na minha traseira, piscou os faróis e insistiu que eu saísse para que ele ultrapassasse. Foi demais. A pista correta para ultrapassagens, como todos sabem, é a da esquerda. Aquele infeliz forçando a barra pela direita definitivamente não fazia sentido e eu não cedi, obviamente.

Não saí da direita, não dei passagem e ainda coloquei o braço para fora, apontando a pista da esquerda como a correta para aquele tipo de atitude estúpida e fiz um sinal feio com o dedo médio. Maldito André e sua intempestividade. O infeliz me ultrapassou pela pista do meio, fez sinais não mais honrosos para mim e ainda fechou meu carro. Não sei se ele pretendia provocar um acidente ou apenas me assustar. Sei que definitivamente nada adiantou. Não me assusto com facilidade e dirijo muito bem para um idiota me fazer bater de carro.

Ele, porém, prosseguiu com as gracinhas até o pedágio. Lá, parou o carro em frente ao meu, na pista do passe expresso, local de onde não era possível fugir. Havia um guarda municipal no local, o que me deu certa tranqüilidade. Quando estamos certos, não costumamos temer represálias oficiais. O sujeito falou qualquer coisa para o guarda, saltou do carro e veio em minha direção.

Esses segundos duram em média milésimos de segundos. Eu tenho uma certa vantagem em relação a outrem de estar preparado para surpresas durante a vida. É isso, pelo menos, o que eu laureio por aí. Deve-se pensar rápido para não se fazer besteiras, ensinavam os Dons no São Bento. Na minha profissão, então, é importante estar preparado para respostas e atitudes de todo tipo, a fim de não ser enganado. A única pessoa que consegue me surpreender, aliás, é minha namorada. Não vou dizer se negativa ou positivamente porque não quero arrumar confusão.

O que quero dizer mesmo é que o sujeito me ameaçou, perguntou qual minha moral para xingá-lo com o dedo médio e disse que eu deveria tomar cuidado para não morrer. Sua camisa era larga e parecia haver algum volume.

Nessa situação, normalmente eu sairia do carro e deflagraria uma discussão que, possivelmente, terminaria com dois trogloditas rolando no chão. Mas me contive. Muito pela possibilidade de ele estar armado, muito pela falta de necessidade de um ato de afirmação machista.

Assim, eu apenas o lembrei de que ele estava correndo demais na pista da direita, mas pedi desculpas pelo meu gesto. A maturidade me trouxe humildade e consegui conter meu orgulho.

O guarda, depois, veio dizer que o sujeito estava um pouco alterado e que eu deveria relevar. O cara, provavelmente, era policial. Retratos de uma cidade onde pessoas agem sem pensar, brigam, atiram e fazem suas leis. Eu, pelo menos, me senti superior.

Não há dogmas reais ou Como espantar caretas desse blog?

Eu odeio gente careta. Certa vez inventei, para um amigo que recentemente havia largado a batina, que havia dado o rabo na noite anterior. Ei, Lucas, eu dei o rabo ontem à noite, dei para o João. Lembra do João? Não acha que fiz muito bem?

Lucas ficou chocado, como imaginava. E eu acho mesmo que há situações em que devemos chocar os outros, com o objetivo de trazê-los mais para próximo da realidade. Ele desligou e disse que iria rezar por mim. Vou oferecer minhas preces para você, André, para que você reencontre Deus. Ele ainda ligou para o João que, malandro, confirmou a história.

Mas Deus não tinha nada a ver com o fato de eu dar ou não o rabo. Eu sentia a dor, o problema era meu, portanto. Assumir a passividade no sexo anal, naquele caso, foi a forma que encontrei para espantar a caretice de Lucas. Não sei se ele melhorou, mas sei que parou de me procurar até que eu desmentisse a história. Porém, até hoje, quando nos encontramos, ele fala que não acredita em desmentidos.

Com o objetivo de espantar a caretice, adoro falar para familiares ingênuos que determinadas pessoas, preferencialmente as de comportamento ilibado, usam drogas usualmente. Mas não tem nada demais, mãe, o Matheus cheira uma carreirinha só por diversão. Deus, nestes casos, também é evocado com palavras. Esquece-se que mais uma vez Ele nada tem a ver com isso e que ninguém tem o direito de evocar Deus.

Os caretas têm essa mania de reclamar de drogas. Eu, que quase nunca sou careta, não tenho problema algum com drogas, apesar de não as usar muito. Um amigo, Marcos, certa vez me ofereceu umas bolinhas coloridas dizendo que daria uma baita onda. Recusei. Porra, André, você é muito careta, cara, precisa se liberar mais. Mas eu encho a cara, faço minhas merdas e pouco tenho pudores, Marcos. Será que sou tão careta assim?

As bolinhas de Marcos, a carreirinha de Matheus, a confirmação de João e o espanto de Lucas são a maior prova que consigo lidar com distintas personalidades, sem me espantar. Até aceito os caretas na minha vida, com o mesmo afeto que aceito os ditos "modernos" (uma praga pior que os caretas, garanto). Só que não os quero aqui, no Inventando Dogmas. Eles nunca me entenderiam.

Reciprocidade, expectativa e hipocrisia

Cheguei de viagem e o que mais queria era vê-la. Poderia ficar horas apenas observando sua boca semi-aberta e ouvindo sua respiração ofegante enquanto dormia, como já havia feito tantas vezes. Bastava que ela estivesse próxima e acessível, que eu me daria por satisfeito. Não pedia reciprocidade. Nunca pedi.

Poderia até chover torrencialmente e eu ter que me aventurar com água até o joelho pelas ruas do Rio, que estaria tudo bem. Aprendi que é muito mais divertido pensar no momento que se vai encontrar novamente alguém do que no trabalho maravilhoso que se pretende fazer. Empregos passam e podem ser substituídos. Pessoas não. Assim, meu trabalho se tornou irritante e dia após dia mal espero a hora de ir embora.

Mas nem sempre as coisas acontecem como planejamos. O grande problema da expectativa é, lógico, a possibilidade de ela não se concretizar. A gente quer alguma coisa, pensa nela o tempo todo e na hora H, merda, nada feito. Eu, instável pra cacete, sei bem o que é isso.

Acreditem, sou o tipo de sujeito que pode ficar horas parado na frente de um lugar, em troca apenas de um instante próximo a alguém. O problema começa quando este instante que, para um foi um sacrifício, para o outro não tem a menor importância. Tudo bem, tudo bem, deixo vocês me acusarem de hipócrita: às vezes a reciprocidade é bacana, sim.

Assim, eu ter querido vê-la depois de chegar de viagem pareceu não ter surtido efeito algum. Acho que faltou comprar um presente. Talvez flores, talvez crisântemos. Ou, talvez, tal como aqueles caras que iam para a guerra e ficavam anos fora, eu tenha voltado cedo demais de uma viagem cujo retorno não era mais esperado.

Quinta-feira, Janeiro 26, 2006

Cadeia alimentar

Relido meus últimos dogmas, triste conclusão: foram todos muitos ruins. O pior é que ando num bloqueio criativo impressionante, sem idéias para começar uma simples história. Antes dessa confissão, pensei na alternativa de me aventurar pela poesia, mas não escrevo versos há três ou mais anos e não quero passar vergonha. E nem eram interessantes, dignos de publicação, garanto:

A samambaia foi comida pelo gafanhoto,
Que foi comido pelo sapo,
Que foi comido pelo lagarto,
Que foi comido pelo lobo,
Que foi comido pela cobra,
Que foi comida pelo homem,
Que foi comido pela leoa africana.
Pobre leoa, comeu logo o homem!
Teve indigestão
E morreu.

Escrevi esse em 1995. E eu era uma criança em 1995, vocês têm que entender. Achava o comunismo o máximo ao mesmo tempo em que me sentia tentado por uma vida religiosa. Tinha espinhas na cara e só não me masturbava todos os dias porque um monge me perguntava se eu havia pecado contra a castidade semanalmente. Sim, pecava, mas me arrependia, caralho. Só que o arrependimento era inútil e o Dom abaixava a cabeça e lamentava com os olhos. Um dos maiores traumas da minha adolescência foi justamente não poder me masturbar sem culpa e com prazer.

Desde aquela época, como os versos acima podem mostrar, eu já tinha uma certa intolerância com o ser-humano. Uma intolerância hipócrita, lógico. Não era possível julgar meus pares da pior forma possível enquanto me considerava quase perfeito. Se me perguntassem na época minhas qualidades, cravava sedutor e perspicaz. Humilde, jamais.

Já a humanidade era considerada por mim o maior erro divino. Porém, entendam, eu acreditava na infalibilidade de Deus. Como o homem poderia ser mau se havia sido criado a Sua imagem e semelhança? Seria pecado duvidar da fôrma. Meus poucos pesadelos na época eram todos a respeito desses paradoxos que eu mesmo criei: homem x André; homem x Deus.

Apenas como informação de pouca relevância, os sonhos eram todos recheados de belas mulheres, com Juliete Binoche sendo a recordista de aparições. Acho até que já escrevi aqui, em forma de dogma, sobre as retas paralelas que eu imaginava serem formadas entre os bicos de seus seios e seu nariz empinado. Retas paralelas, ha. Intolerante, religioso, convencido e nerd. Deveria ser bastante difícil encontrar alguém que gostasse de mim realmente.

Mas eu deixei esses quatro adjetivos de lado na vida adulta. Sou cada vez mais condescendente com os erros alheios, menos suscetível a crenças, mais incrédulo quanto a meu potencial e menos viciado em rpg, internet e congêneres (apesar de escrever regularmente num blog e ter aceitado recentemente colaborar com outro).

Quem me conhece além dos meus dogmas vai duvidar desta humildade laureada, eu sei. Para estes, um conselho e um pedido: não achem, como eu já achei, que somos melhores que outrem. Sempre me coloquei noutro canto da cadeia alimentar. Mas sabem aquela música sofrível da Pitty que diz "quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra"? Pois é mais ou menos por aí. E eu ainda tenho a impressão que foi Outra Pessoa que escreveu esses versos.

Terça-feira, Janeiro 24, 2006

Charles, Camilla, Harry.

"Harry, como você consegue andar por aí com essa coisa horrível amarrada em seu braço?"

"Eu iria te perguntar o mesmo."

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

X

O leitor mais apercebido deve ter notado que há um certo excesso de mulheres que esperam do protagonista um retorno sentimental nessa epopéia toda. Luana, Adèle, Paola. A namorada, a ex, a puta. Adèle, bem verdade, já estava na América, o coração cicatrizado, o corpo ausente. Sobram Luana, que amava, ou pretendia amar a mim e Paola, que nem queria falar de amor, o tempo urgia, vamos gozar antes de morrer. Eu me ressentia, todo aquele teatro armado por vezes não era agradável na hora do banho, logo após eu acordar, quando o telefone tocava diante de Luana. Poderia ser uma das duas, apesar de que quase nunca era ninguém importante.

Mulheres podem até parecer, mas jamais são sonsas. Elas sabem, meu amigo, reconhecem e esperam o momento oportuno para encruzilhar você. Adèle quis se despedir de mim ainda no Rio, telefonou e perguntou onde eu estava e apareceu. Não estava mais de terno, não havia mais a valsa e eu ainda era o ex-namorado que terminou tudo e foi morar milhares de quilômetros além dela e de seu amor, tão mudo outrora. Seus olhos cegavam a minha fala. Mas sua fala me dizia que estava indo embora do país por um tempo para tentar voltar um dia e encontrar a cidade sem meus vícios espalhados por ela. Não foi gracioso ouvir, não tentei retrucar. Aí disse que não queria ir, assim como eu não precisava estar tão longe. Foi quando o telefone tocou, o celular, e era Paola. Não atendi, mas ela percebeu o motivo. Adèle então desatou num choro miúdo e me transformou no pior dos homens. "Custava você deixar eu te amar mais um pouco?", ela chorava e foi assim a despedida. Ao final do dia, ela estava decolando.

Luana vasculhava sempre o meu celular, como quem não queria nada. Eu deixava, como quem não tinha nada a temer. Ela parava em nomes femininos eventuais e perguntava, porque alguns calhavam de repetir. Há muitas jornalistas na cidade, eu dizia, a gente se fala para trocar informação. Ela não acreditava em nenhum som daquela resposta, mas fazia que sim. Continuava a bisbilhotar, mantinha a esperança de me subjugar pelos meus crimes. Ela franzia o cenho, suas mãos se impacientavam, ela era linda demais para essa cidade. Meus olhos não cansavam de percorrer seus perímetros, de desejar aquela mulher, aquela cidade toda dentro dela. Ela um dia largou o telefone e disse que simplesmente sabia que eu não havia tomado jeito. Neguei, como não? Jurou que eu dia iria me pegar, entre irônica e enraivada. Continuei na negativa, ela continuou com a pulga atrás da orelha. Eu já disse, citando um provável bêbado dessas sarjetas da vida, o pior inimigo do homem é uma mulher enganada.

Um dia, vejam só, Paola cismou que devia passar um domingo comigo, no meu apartamento. "Eu queria cozinhar teu almoço", ela dissimulava. Ela me dizia essas palavras com um sorriso de mãe e a cabeça do meu pau me impedindo de ver seu nariz. De onde teria vindo aquele súbito desejo de cozinhar para mim, ela que nunca nem havia me oferecido nem cigarro nos silêncios e entreatos? Vi ali algo mais, algo mau. Ela mencionou como se não fosse nada adverso, como se meus domingos fossem algo a seu alcance, tal como a sua língua que me adiava resposta ou, melhor, induzia, porque ela sabia como poucas me fazer repetir a palavra sim em alto e bom som se necessário fosse. E me fodeu com ganância naquela vez, sem olhar hora e me olhando nos olhos. De dar medo. Ao final, se aninhou no resto que deixara de mim se decompondo em meio a suor e dúvidas e voltou a falar de domingo. Eu disse que talvez, gostava dos domingos para ler meus livros de tarde entre um cochilo e um jogo na tevê. "E eu achando que você era diferente do restante que me come pra esvaziar a porra do saco" foi a resposta. E ela não tocou mais no assunto.

Havia uma tensão sobre a minha existência, feito as nuvens carregadas no céu da cidade com a chuva acumulada daqueles suores tropicais. Uma hora haveria de desabar a tormenta, destelhar as farsas, fazer vir à tona as mentiras. Eu sabia o tempo todo que não tinha como acabar bem. E tudo o que eu fazia era beijá-las diferente, aqueles corpos, aquelas verdades que me custariam partes significativas de mim. Eu as beijava para ser devidamente apedrejado quando fosse a hora.

No tal domingo, Luana me acordou com o toque da campainha. Quis me fazer uma surpresa e fazer um almoço para nós dois. Ela estava linda, sempre estava linda. O almoço demorou a sair e quase virou janta. Eu lutava contra o tempo, uma derrota anunciada desde o início do jogo.

O tempo, meu bem, o tempo.

Delírios pornográficos II

Recentemente aprendi a técnica do shibari. Foi uma amiga, daquelas que costuma ocupar um espaço além do lado a lado no sofá, que me ensinou. Ela havia viajado para o Japão a trabalho, conheceu um velho japa tarado e, pronto, aprendeu o tal shibari. O telefonema, com o relato e o convite, é digno de nota:

- André, amigo, sentiu minha falta? A gente precisa se ver. Com urgência. Um japonês, Kenjiro, de uns 60 anos, me ensinou mais sobre sexo do que você jamais poderia imaginar para um conto. Até agora não consigo me controlar.

Minha amiga é um pouco afetada e, não por menos, desconfiei da potencialidade do tal ensinamento. Até porque meus contos são inventivos demais e minha imaginação é incontrolável, tanto para o bem, quanto para o mal. Fui conferir incrédulo, pensando mais no sexo habitual que compartilhávamos há anos do que na dita cuja novidade.

Admito que o shibari me conquistou. Ela me mostrou livros, cordas, posições. Inicialmente pensei em se tratar de mais um bondage requintado. Que nada. As posições do shibari são o melhor que se pode conseguir em níveis de excitação entre um homem e uma mulher. Para alguém como eu que nunca deu muita bola para o sexo psicológico, garanto que o shibari vai muito além da observação e da submissão.

A técnica se originou no Japão feudal. Cada clã dominava uma forma de shibari que era passada apenas para descendentes. Era utilizado por samurais para imobilizar e punir prisioneiros até que, nos anos 60, passou por uma valorização erótica, com apresentações em teatros fechados para demonstrações.

As combinações de cordas e nós rende posições extremamente estéticas que valem muito mais do que qualquer brincadeira com algemas e correntes. A dorei (nome dado à mulher submetida ao shibari) fica exposta de uma forma surpreendente, mesmo quando pouco se mostra de seu corpo. O que mais impressiona é a imobilização de membros e a expressão de terror sexual que isso provoca às doreis.

As possibilidades do shibari, aliás, também são impressionantes. Eu e minha amiga, poucas semanas depois da descoberta, ainda estamos tentando reproduzir uma que consegue amarrar perna esquerda com braço direito deixando a bunda exposta. Não é fácil, acreditem.

Quinta-feira, Janeiro 19, 2006

You can't hold me down

Andy, não te abandono. Apenas peço para alocar ali na coluna do lado um linkzinho simpático para minhas resmungarias. Do mais, abraço.

Dúvida de alguém que não matou Bia Falcão

Sério, gente, qual foi a última vez que vocês leram no jornal sobre um carro que desceu uma ribanceira ou bateu num ônibus ou bateu num poste e explodiu?

Aguardo respostas, porque eu nunca soube de nada parecido - e leio jornais todos os dias há um ano, pelo menos.

Segunda-feira, Janeiro 16, 2006

"Se estrume vende mais que flor, vamos encher os jarros de merda."

Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Caro André,

Que bom que as pessoas ainda insistem em ler o nosso blog, com tanta coisa mais interessante que há de haver a ser feito nessa vida. Que bom. Não que eu vá de deixar de escrever se ninguém mais virar pra mim e dizer algo a respeito das minhas elucubrações, mas sou humano feito qualquer um, gosto de saber que sou lido, mais ainda de saber que sou gostado. Modéstia é o caralho. Escrever só não me dá mais gosto do que trepar - trepar bem, sexo dos bons, não qualquer trepada.

Mas daí a gente começar a se policiar para não magoar olhos alheios, aí discordo. Claro, eu sei, a Josy é um doce de coco, um achado, uma pérola. Se ela se virasse pra mim e pedisse com biquinho pra eu não escrever mais frases do tipo "... ela gritou, a boca transbordando em esperma e baba e pediu pra ele gozar dentro de seu cu, seu glorioso cu, seu não mais tão apertado cu, seus não mais tão seu cu" eu tremeria. Porra. Mas seria um pedido injusto. É só ler o que a gente enuncia lá no subtítulo da página - As narrativas ficcionais aqui alocadas são exatamente o que parecem: ficção. Se as palavras incomodam, que se procure algo melhor. Há muito a ser lido no mundo, acreditem.

Já passei pela situação e sei que o estigma do "namorado que sabe escrever" pode ser sacal. Uma coisa é o namorado, outra é o escritor. São a mesma pessoa, mas não estão fazendo a mesma coisa. Como tenho uma tendência a escrever na primeira pessoa, é normal que o leitor imagine (e ainda mais num blog) que quase não há ficção na minha ficção. Você, leitor(a), pode achar o que bem entender, isso não me compete avaliar. Só não pode entrar numas de que realmente pego minha rotina aqui e batizo de ficção, porque não dá pra ser assim. Coletar elementos do dia-a-dia é uma coisa, transcrever minha rotina (sonífera, acreditem) é outra completamente diferente. Minha vida quero guardar pra mim. Minha ficção eu gosto de mostrar pra vocês.

Daí eu implicar com quem acha que, por exemplo, Luana, Nina, Paola, etc. já passaram pela minha cama. Implicar com a tendência a relações auto-destrutivas e cínicas das minhas personagens. Implicar com a quantidade de excreções e palavras chulas. Se você não acredita que eu invente as coisas ou não gosta do modo como coloco tudo no papel, veja bem, você não gosta do que eu escrevo. Não quer dizer que você não goste de mim, não é ofensa, não é nada. Eu provavelmente irei morrer sem que um mísero daqueles bilhões de chineses possam me ler porque duvido que algum dia eu seja traduzido para o mandarim. Nunca perdi uma horinha de sono por conta disso.

Ademais, as atrizes pornôs namoram, têm filhos e pais. As putas, em sua maioria, têm um namorado. Nenhuma delas deixa de fingir seu gozo na hora do vamos ver. Somos todos profissionais aqui. Se elas fecham os olhos e pensam em seus respectivos pra enganar a gente, não há como saber. Se usamos a ficção pra atiçar a realidade, a graça só existe se for feito em segredo. Escrevemos porque precisamos escrever. Escrevemos como precisamos escrever.

Relaxe, André. Essas moças são confusas (hormônios demais), mas espertas e malandras. Elas sabem muito bem o que lêem.

Quinta-feira, Janeiro 12, 2006

Uma história de adultério

Numa história de adultério são necessários apenas três personagens e nada além deles importa, a não ser que o escritor faça do adúltero um pervertido com várias consortes. Pode-se, ainda, usar sogra, cunhado, amigo etc, mas esses são inseridos no texto como um sofá e uma geladeira, só para encher mais páginas. Não se preocupem, então, que nesta história de adultério, a que vou descrever abaixo, não vou perder tempo relatando detalhes do ambiente, garanto.

Mesmo quando não se fala sobre um dos três personagens, ele está lá. Na história de adultério que vou descrever, só vou usar um dos personagens, mas o leitor vai identificar com clareza os outros dois, sem dúvida. Porque num adultério, as personalidades dos outros dois movem a ação daquele que sobrou, não tem jeito. É um triângulo confuso, cheio de medianas, bissetrizes e mediatrizes. Arrasta-se um vértice mais para a direita e a o ângulo dos outros é modificado.

Importante esclarecer que, numa história de adultério, antagonista é sempre o adúltero e protagonista sempre é a mulher ou o homem traído. E não sejam tolos em achar que faço juízo de valor - esperem mais de mim, por favor. Só que é da dor dos traídos que são gerados tensões e sofrimentos necessários para aproximar o leitor da história. Apesar disso, leitores e escritores, em sua grande maioria, sempre dão mais atenção e carinho às ações do antagonista. A transgressão atrai e comprova o que eu sempre digo: o ser-humano não presta.

Aos amantes cabe sempre o papel do tritagonista numa história de adultério. Por mais interessante que possa ser a personagem, as motivações passionais ou eróticas dos amantes nunca são mais importantes do que sofrimentos e catarses de protagonistas e antagonistas. Mesmo quando o tritagonista age e tem fundamental importância na decisão do antagonista para se tornar um adúltero, é este, o adúltero, o responsável pela traição. O amante é apenas um caminho, existe porque é necessário para o adultério, mas sua relevância é terciária. Ele pode até se envolver amorosamente e sofrer pelo adúltero, mas seu envolvimento viria depois do da pessoa traída e teria uma importância menor para a história.

O adultério básico pode ser dividido em quatro fases: dúvida, traição, dúvida e (não) arrependimento. O antagonista sempre fica em dúvida antes de trair e sempre fica em dúvida, também, antes de confirmar suas ações e não se arrepender ou de arrepender-se e interromper suas ações. Se não há dúvida, o casamento está findo e a história, em vez de ser uma de adultério, é apenas sobre a mediocridade de um casal que não toma atitudes em relação a sua situação. Ah, protagonista e tritagonista também têm dúvidas, acreditem.

E é em cima de dúvidas que descrevo um adultério onde só um dos personagens é necessário para a história. Uma história real e curta, aliás:

""Sempre achei que o adultério seria mais necessidade do que crueldade. Mesmo assim, consciente disso, mantive-me fiel por sete ou oito anos, talvez por acreditar naquele amor, talvez porque o sexo me satisfazia plenamente. Assim, só comecei a me relacionar com outra pessoa depois que percebi que aquele era o único caminho para a felicidade. Mas rogo por um fim".

Era como se eu estivesse numa igreja novamente, com os sinos tocando para a missa de domingo. Mas não havia ninguém comigo. Olhava para os lados e só via cadeiras e mesas vazias. Às vezes aparecia um ou outro garçom, mas era como se eles não existissem. Li o bilhete pela sétima vez ali, sentado, alheio ao mundo. Queria fugir de uma vida agonizante, que cada vez mais eu tinha a certeza que não poderia ser a minha. Tomei um chope para tomar uma decisão. Eu tinha encontrado com ela na noite anterior e mal pude olhar para sua cara. Saí com o bilhete de casa hoje pensando no que fazer. Não agüentava mais esperar que alguém resolvesse aquilo por mim, que alguém desse um rumo para minha vida. De todas as perguntas que eu fazia, a mais importante era entender a motivação para o adultério. O que leva alguém a cometer adultério?"

Domingo, Janeiro 08, 2006

Possibilidades

Caro Leandro,

Descobri por acaso que há uma pequena chance de uma de minhas cunhadas ser leitora de nosso blog. Duvido que seja assídua, mas talvez ela seja uma leitora esporádica, talvez escolha apenas os posts com títulos mais sugestivos como "A pornografia deixada de lado pela ternura" ou algum de meus "Delírios pornográficos". Não, não ache, amigo, que uma de minhas cunhadas goste demais de saliências. Vamos manter o respeito. É que, talvez, e apenas talvez, o comportamento sem pudores de seu cunhado chame sua atenção. Se eu tivesse uma irmã mais nova, meu cunhado estaria fudido, garanto.

Desde que descobri que meu irmão mais velho vem no meu blog, comecei a tomar cuidado com as coisas que escrevo. É lógico que tudo não passa de ficção, sabemos bem disso, mas semelhanças com a realidade podem causar confusão na cabeça daqueles que pouco conhecem o que se passa em nossas cabeças. Esse tipo de confusão, aliás, acontece também quando a irmã da minha cunhada escreve em seu blog que está aflita por não ter casado ainda. Medo, Leandro, medo.

Mais medo ainda em pensar que um dia sogra, sogro e um bando de lutadores de Krav Magá podem vir aqui conhecer nosso blog. Porra, uma vez, há uns dois anos, escrevi um texto relatando meu sonho de chegar em casa e pedir para minha esposa um sexo anal sem reclamações ou lubrificantes. Consegue imaginar o namorado da sua filha escrevendo isso, amigo? Duvido que o namoro continuasse por muito tempo.

Enfim, vou ter que parar de escrever sacanagem neste blog. Ou isso, ou termino o namoro. Qual opção é mais apropriada? Existe a possibilidade, ainda, de eu pedir para a cunhada não vir aqui em hipótese alguma. Mas, você sabe, estou cada vez mais paranóico e, na realidade, ela pode nunca ter lido um de nossos dogmas. E, se eu falar, vou acabar atiçando sua curiosidade. Melhor deixar quieto então.

Ah, caro Leandro, essa cunhada que talvez, e somente talvez, venha a nosso blog de vez em quando, é casada, oká? Portanto, comporte-se.

Quinta-feira, Janeiro 05, 2006

Mentiras

Eu nunca tive lá muito jeito para a sinceridade, sabe? Sempre inventei coisas e maquiei a verdade. Questionado, repetia "a verdade é uma mentira muito bem contada", dando o crédito à Emília, a bonequinha de pano. Uns amigos próximos, há dois ou três aniversários, até me presentearam com uma miniatura do Pinóquio, que guardo carinhosamente ao lado da minha cama.

Mas é dogma que eu sempre me arrependia depois, mesmo achando graça em determinados momentos. Há aquelas mentiras bobas, que não causam grandes danos e que, a princípio, não magoam outrem. O problema é a recorrência. E é nesses casos, os da recorrência, que elas perdem o status de bobas e se tornam nocivas. Pode-se mentir uma vez, ninguém perceber e bola para frente. Mas na primeira vez que se é pego na mentira, a confiança vai para o espaço e é foda retomá-la. Aprendi isso na prática, tanto de um lado, quanto de outro, portanto sei do que estou falando.

Não se enganem pensando que vou escrever agora que pretendo viver um 2006 livre das mentiras. Elas estão soltas no ar e, pintando a oportunidade, vou acabar catando uma coisa ou outra e mandando brasa. Mentir faz parte da minha vida há bastante tempo e uma ou outra já contada são difíceis demais para corrigir ou voltar atrás.

Só que eu realmente pretendo mentir menos. Nem que seja para quem realmente importa. Eu posso até mentir no trabalho, mas não posso mentir para minha namorada, por exemplo (não que eu minta para ela, mas sempre é importante deixar isso claro). Algumas mentiras causam determinados estragos impossíveis de serem consertados a curto prazo. E eu não quero mais um desses para minha vida. Nem de um lado, nem de outro.

Toda essa baboseira é para dizer que ontem à noite revi "A última tentação de Cristo". E a analogia do filme mostra como qualquer um pode ser afetado pela mentira. Até mesmo aqueles de quem se espera mais, como o sujeito do título. E esse é o mal da mentira. Espera-se muito de alguém e se decepciona quando descobre-se que este alguém mentiu. É assim na vida, foi assim no filme. E nem sempre, ao contrário do arrependimento de Cristo, é possível voltar atrás e reparar o erro.

Quarta-feira, Dezembro 28, 2005

IX

Eu gostava de caminhar pelo Rio adormecido. Ainda gosto, é o único lugar onde me sinto em casa, onde tenho algumas certezas. Certezas idiotas e provavelmente não-concretizáveis, apesar de serem minhas verdades absolutas. Caminhar pela cidade após a maioria de sua população economicamente ativa ter se deitado sempre foi dos meus passatempos favoritos desde que o hábito de beber até mais tarde se apegou a mim, praticamente virando um cartão-postal do homem que tentava ser.

Caminhar por Belém era diferente. Não que fosse ruim, porque era bom, mas era diferente. As luzes brilhavam diferentes, o espaço nas ruas entre os carros eram diferentes, as pessoas nos bares ou nas janelas ou nas calçadas eram diferentes. O ar que eu respirava era outro. Eu era outro. A própria noite era outra, não era o Rio, não era São Paulo sem estrelas em seu céu, não era Belo Horizonte. E aquela era uma noite surpreendentemente fresca naquela cidade tão calorenta, tinha saído do cinema e não havia mais ônibus até minha rua naquela hora. Porém havia o Bar do Parque, que não fechava nunca.

Os garçons circulavam madrugantes, era dia de semana, poucos e heróicos fregueses naquela hora no lugar. Tratava-se de um quiosque estilo colonial onde um balconista tomava conta dos pedidos, dava algumas ordens aos garçons e providenciava cigarros, chicletes e afins. A cozinha ficava num subsolo da praça onde o bar se instalara, as mesas ficavam numa área elevada em relação à Praça da República, ao lado do Teatro da Paz. Abaixo dos fregueses, a cozinha, onde pedi ao Teixeira, meu garçom, um sanduíche de calabresa com mortadela e cebolinhas fritas. Um primor. Acendi o último de meus Luckies e deixei a Cerpa descer devagar.

O grande porém de eu morar em Belém era a minha preguiça em conhecer muita gente. Aquela coisa de você não criar muitas raízes numa cidade onde só se está a caminho de outra, porque, mais dia, menos dia, acabaria indo embora. Então, de vez em quando batia a carência absurda de ter uma amigo ou um desconhecido qualquer para falar sobre qualquer coisa, dividir uma ceveja, marcar um futebol. Só que já passava das onze da noite e eu não estava com paciência para mulher alguma. O jeito foi abrir um livro e esperar o sanduíche. Ler de noite sem paredes é uma experiência renovadora, altamente recomendável. Então, veio a surpresa. Teixeira assossegou-se perto de minha mesa e falou de lado, enquanto anotava qualquer coisa num bloco que "Fante bom é o de 1933". Para John Fante, grande escritor norte-americano, criador do imortal Arturo Gabriel Bandini, 1933 foi um ano ruim e digno de ser transformado em romance. Romance soberbo e lido por Teixeira, quem poderia imaginar. Eu estava no meio de "O Caminho de L.A." e concordei com o homem.

Eu lia Fante com um misto de admiração e inveja, porque tenho plena consciência de que minhas palavras nunca alcançarão aquele nível de rancor ou dedicação a uma mulher. Teixeira concordava, Fante amava e odiava além daquelas páginas, o homem era real, seus livros nos diziam algo sobre a incongruência de estarmos vivos e não aproveitarmos os dias. "Você veja, rapaz, a cidade está vazia e são apenas onze da noite. Cadê a vida das pessoas aqui?" Teixeira poderia apenas reclamar que o bar estava com movimento fraco, mas fez algo mais e eu concordei. A vida não acontece em silêncio, Belém merecia uns gritos. E ele foi trazer meu sanduíche. Voltei ao Fante, Bandini perseguia uma mulher por ruas e portos.

Já era tarde quando cheguei em casa e desabei na cama. Sozinho, meu bem, sozinho.

Terça-feira, Dezembro 27, 2005

Escolhas e outras coisitas mais

Eu tinha algumas opções. Na dúvida, não escolhi nada e voltei a fumar depois de dois anos livre do cigarro. Fumo um atrás do outro, principalmente quando dirigindo. É uma praga, a porra do cigarro. A gente tenta largar de qualquer maneira, mas não há razão que nos faça tomar a decisão certa. Assim define-se o vício, acho.

Foi uma decisão estúpida, mas prometo parar de fumar na próxima semana. Só que eu sou especialista em prometer coisas novas para a próxima semana. O problema é que, quando chega a hora de cumprir a palavra, putz, vai tudo para o espaço. No caso do cigarro, todo momento em que me pego tendo que decidir alguma coisa, sinto vontade de fumar. E fumo, merda. Pensei que as coisas poderiam ser mais simples. Talvez realmente possam e eu goste de complicar.

Acho importante perder algumas linhas para explicar minha motivação para começar a fumar. Peguei um trabalho de três meses meio intenso, segunda a segunda, das 8h às 20h. Ficava com sono e descobri que o cigarro me mantinha acordado. Daí para frente, um abraço, virei fumante. Já li num lugar que só é possível dizer que se largou o cigarro depois de três anos livre do vício. Vou ter que esperar ao menos o fim de 2008, agora, para alcançar a paz.

Escrevi sobre fumo, decisões e promessas. Prometo decidir largar o fumo ou decido fumar para cumprir promessas ou fumo para decidir quais promessas cumprir? O jogo de palavras é divertido, faz efeito, mas não leva à nada. Promessas e decisões são substantivos inócuos, sem significado fora de um contexto. O cigarro, ao contrário, é nocivo sempre. Taí a prioridade.

Mas eu gosto de charuto, disso não tenho dúvida e disso eu não quero me livrar.

Segunda-feira, Dezembro 26, 2005

Ano Novo

Depois de passar muitos minutos lendo um velho blog reaberto, resolvi ler alguns textos antigos deste Inventando Dogmas. E cheguei a uma conclusão: meus poucos escritos realmente pessoais que eu posso chamar de bons são quase todos depressivos. Os otimistas, na maioria das vezes, são uma porcaria.

Nesta época do ano, então, a coisa piora. Até março, fico deprê, sumo, subo a montanha e penso em entrar numa igreja em busca de uma confissão. Sempre foi assim e meus últimos comportamentos indicam que não será desta vez que isso vai mudar. Os textos que publicarei aqui, provavelmente, vão refletir essa fase. Tenham paciência, por favor.

Escrevi toda essa besteira para dizer que 2006 está chegando. Dois mil e cinco foi o ano em que eu descobri que posso ser ciumento, violento e pernóstico. E, apesar de tudo, eu amei a descoberta. Assim, prometo duas coisas para o ano que chega: treinar para me candidatar a Mister Universo; e usar filtro solar.

Agora, por favor, chega de choradeira e voltemos à ficção.

Segunda-feira, Dezembro 19, 2005

Acabou o papel

Desejo a todos e todas, como não?, esses já gastos mas nunca malquistos votos de um feliz natal - com rabanada, chester, cunhado bêbado - e um 2006 superlegal, apesar da ressaca de Sidra no dia 1º.

Felicidades, saúde e grana no bolso (para o caso de você ser infeliz e doente, poder sê-lo em Paris), pessoal.

Abraços, beijos e espero não estar devendo dinheiro a ninguém!

Leandro, Defunto Autor.

O admirador anônimo

Eu entrei na livraria atrás dela, movido por um certo sentimento doentio que mexia comigo. Até então não sabia se obsessão ou amor. Fiquei observando de longe, atento a um momento em que eu pudesse me aproximar e iniciar uma conversa daquelas sem pé nem cabeça, mas que ao menos permitiria algum contato, mesmo que mínimo. Em situações desesperadas, mínimos contatos são motivos suficientes para boas noites de sono e dias de esperança.

Para ela, eu era um anônimo entre tantos anônimos. Porém, me sentia ainda mais anônimo pensando que, para os outros, ela também era uma anônima. É que, para mim, ela era motivo de obsessão ou amor há oito meses ou mais e a não retribuição de tais sentimentos fazia meu anonimato ainda mais doloroso.

Fiquei na porta num primeiro momento, ao lado da mesa dos lançamentos. Seus passos traçaram a letra "c", escrita imaginariamente no sentido horário. Pensei que ela fecharia o círculo formando um "o", mas antes de chegar lá, parou, escolheu um livro na terceira prateleira de baixo para cima da estante lateral e se sentou num banco de madeira comprido, colada a uma mesa também de madeira. Apoiou o livro lá e começou a ler. Só então, larguei meu posto de vigília e caminhei pela livraria. Não agüentava mais as pessoas atrás de lançamentos, fazendo perguntas idiotas. Oxalá um dia abram uma livraria em que os lançamentos fiquem escondidos no fundo e não na entrada. Seria mais inteligente: os 95% consumidores das grandes livrarias seriam obrigados a passar por todas as prateleiras, inclusive a de clássicos da cultura grega, para chegar aos lançamentos. É que 95% dos consumidores das grandes livrarias só querem saber dos grandes lançamentos. Eu e os outros 5% agradeceríamos pela novidade.

Não consegui identificar seu livro num primeiro instante, mas depois percebi que era uma coletânea de reportagens históricas. Pensei em escolher o mesmo livro e tirar dessa falsa coincidência alguma elocução que me tornasse menos anônimo. Desisti por medo da obviedade. Não poderia subestimá-la.

Preferi um romance, talvez para demonstrar alguma cultura. Peguei Sexus, do Miller. Eu tinha o livro, comprado de um velho livreiro que o oferecera semanas antes, e estava na página 182 antes de entrar na livraria, próximo à ocasião em que Henry foi pego por sua mulher com a amante na cama. A mulher já sabia que Henry a traía - ele havia contado - mas ter presenciado a cena foi duro demais e ela finalmente o largou, como o próprio Henry gostaria.

Mais novo, costumava entrar em livrarias, pegar livros que já havia começado a ler e continuar a leitura ali mesmo, sentado num canto. Prosseguia uma obra já começada, mas em outro exemplar. Era como se eu estivesse deflorando um livro, ao mesmo tempo em que cometia adultério contra meu livro. Abria suas páginas suavemente, como quem abre as pernas duras e tímidas de uma virgem. Era gostoso romper levemente linhas ou cola que mantêm os livros enfeixadas em capas duras, diferentemente do exemplar arrombado e bastante manuseado que tinha em casa. Os com mais páginas eram os mais satisfatórios porque, depois de abertos bem no centro, sobrepostos numa mesa, nunca mais voltariam a sua forma original.

O prazer era ainda mais acentuado pelo aroma de novo, do papel que nunca encontrou oxigênio ou pele. O papel liso cujo único contato na vida até o momento da cópula na livraria era apenas com mais papel. Com os quase contraditórios vergonha e regozijo, confesso que diversas vezes me peguei fisicamente excitado ao inaugurar um livro.

Com Sexus na mão, sentei bem ao lado dela, no mesmo banco de madeira. Mas fiquei de costas para a mesa, enquanto que suas pernas, que eu tanto desejava, estavam encaixadas entre banco e mesa. Éramos como dois atletas apoiando umas costas nas outras para esticar pernas e alongar músculos. Mas fazíamos isso sem que nossas costas se tocassem. E como eu queria que ela pousasse seu corpo em minhas costas.

Rompi o exemplar de Sexus, mas não me excitei com facilidade. Ficamos dez minutos sentados, lendo. Cheguei à página 196, numa leitura rápida, mas sem muita atenção. Dez minutos lendo e pensando como criar alguma contato verbal com ela, sem que parecesse pernóstico, chato, presunçoso ou deselegante. Na verdade, o que eu mais queria era confessar meu desejo de amá-la, espiritual e fisicamente, naquela livraria, no banco ou na mesa. Sexus tinha mais de 500 páginas e poderia servir como apoio para a cabeça, caso fosse necessário. Nós dois nus sobre a mesa com um livro grosso servindo de apoio para sua cabeça. Esta era a cena que me desconcentrava para pensar em algum diálogo. Livro rompido, cheiro inalado e suas costas quase encostadas nas minhas, foi inevitável o desconforto de uma ereção intensa, daquelas que causa certa dor pela impossibilidade do alívio.

Neste meio tempo, uma moça gorda de calça jeans e um rapaz negro de blusa amarela pararam próximos a nós e conversaram alguma coisa estúpida sobre pessoas procurando livros de Eça de Queiroz nas estantes de literatura nacional. Ficou claro que o assunto a incomodou quando ela virou um pouco rosto e observou o estranho casal com olhos de indignação. Tinha pavio curto, pensei, e eu deveria tomar ainda mais cuidado.

Quando ela se levantou, chegamos a trocar olhares e eu sorri simpático, como o faria para qualquer desconhecido. Ela retribuiu como faria para qualquer um dos anônimos naquela livraria. Sei disso porque ela sorriu para outro que esbarrou em suas costas na porta de entrada. Era um dos 95% clientes típicos de livraria em busca de lançamentos. Um dos 95% teve mais sorte do que eu e conseguiu um sorriso e um encontro de costas. A mim, restou apenas o sorriso antes de ela ir embora.

Quinta-feira, Dezembro 15, 2005

VIII

Ruivas exercem um fascínio sobre mim, sobre o homem que vim a ser. A Jennifer Connelly também, mas isso não é o foco. É uma espécie de de dominação dos desejos, o sonho de penetrar a carne e nela haver aqueles pêlos encaracolados ou não, mas rubros. Morenas, negras, loiras, amarelas podem ser deliciosas e loucas, gozar em silêncio, fingir aos berros, morder e dançar, eu sei. Mas há as ruivas e aí eu não sei.

Adrienne era uma delas, ruiva, parecia saída dum catálogo de ruivas & colegiais. Um caso sério. Pequena, de saltos, de saias pelas coxas e uma bunda. Uma bunda. Não sei se me liguei primeiro na bunda ou em Adrienne, que era aeromoça e me fazia deixar pra lá as nuvens negras no céu azul. Decerto a lingerie branca era para evitar contrastes indecorosos com o uniforme da companhia, mas era inútil. Qualquer peça de roupa naquele corpo com aquela bunda virava sexo, sexo dos bons. Queria dizer a ela que eu não era o Rei, mas era terrível.

A culpa toda era da ressaca. Voar bêbado era ruim, mas voar de ressaca era o caos. Do Rio para Belém era um vôo demorado e noturno, meu metabolismo não aceitava pacificamente a situação. Felizmente, a companhia aérea havia providenciado aquela ruiva voadora, uma mulher pedindo para ser liberta das rendas e elásticos sob o uniforme, para ser raptada até o banheiro e enganchada por trás, seus olhos vendo-se no espelho até quase sufocar. Seria uma aventura, descer daquela aeronave e trocar olhares cúmplices ou quem sabe fazer promessas a serem esquecidas. Seu eu fosse ousado, daria um jeito de roubar o chachá metálico com seu nome gravado para a posteridade. Seria um troféu idiota, mas seria meu. Aquela Adrienne não me escaparia.

Mas escapou. A ressaca não me impediu de dormir no vôo após a primeira refeição. Eu estava num bagaço, a semana no Rio variando pesquisas e entrevistas para uma história a ser publicada num caderno especial do jornal e cerveja, muita cerveja, com os amigos cariocas saudosos e curiosos de Belém foi uma odisséia. Madrugadas em ônibus, manhãs em repartições. Péssima combinação. No meio da coisa toda, uma festa com Adèle. Ela iria partir para tentar a sorte na América, a convite de uma tia. Luana me ligava de noite e eu retornava de dia, mentiras. Mentiras sinceras. Não, amor, mulher nenhuma, estou a trabalho. Claro que lembrei de procurar a blusinha que você pediu. Se estou bebendo muito? Nem tenho tempo! Mentiras sinceras e amores imperfeitos.

Uma festa de gala, lançamento de livro, todos em trajes chiquérrimos. Eu de terno e barba aparada, homem sério. Adèle surgiu perto da hora da valsa, que tocou sabe-se lá porquê. Então valsamos, ex-namorados, eternos desconhecidos. Ela contou que partiria no final de semana, eu disse que ainda ficaria na cidade para um casamento no domingo. Não mencionei que havia a despedida de solteiro antes do casamento. Silêncio e valsa, um, dois, três, um dois, três. Ela beijou o canto de meus lábios e disse que nunca desconfiaria que eu fosse capaz de valsar de terno. Ela perguntou enfim de Belém, já que eu não falava de lá. Uma cidade quente, mas alegre, foi a resposta. Saíram da valsa pra uma salsa. Kill all djs.

Fui desperto porque o avião se aproximava de Belém e eu tinha que posicionar meu assento e afivelar o cinto para morrer ergonometricamente, caso aquela nave se fodesse. Adrienne passou conferindo se os passageiros seguiam os procedimentos de vôo. Não me viu sorrir. Não me veria mais sorrir. Dionísio, taxista e companheiro de copo e putas eventuais, me aguardava no saguão. Luana, oficialmente amor da minha vida, aguardava sobre a cama. Cupuaçu, tacacá, bacuri. Dormia de bruços e sorriu quando acendi a luz do quarto, me anunciando. Havia pintado seu cabelo de vermelho.

Ruiva, meu bem, ruiva.

Sábado, Dezembro 03, 2005

Sobre dogmas

Eu já acreditei em santos, anjos, Deus, Cristo, Nossa Senhora e outros. Já acreditei em demônios também, que seriam seres maléficos, daqueles com chifres, tridentes e fogo, e que fariam frente a santos, anjos, Deus, Cristo e Nossa Senhora. Se há o bem, deve existir o mal, dizem.

Não é novidade para ninguém que eu estudei em colégio católico e vi, por um bom tempo, a religião como um porto seguro para a vida. Rezava, jejuava e lamentava qualquer pecado cometido. Qualquer um. A vida podia ser menos divertida, mas acho que eu conseguia, com aquelas crenças, imaginar um futuro melhor. Coisa de vida eterna e tal.

Todos os objetivos levavam a Deus. Louvar a Deus, amar a obra de Deus, buscar uma proximidade com Deus. As regras eram rígidas, mas não deixavam muitas dúvidas do que fazer. Estavam escritas e sempre havia um ou outro homem de preto recordando Sua palavra. Neste ponto, o catolicismo é pouco atraente, mas seguro. Com tantas regras, as escolhas são limitadas. Resumem-se a fazer o certo ou o errado. Santos ou demônios, eis a questão.

Se o mal estiver bem claro na cabeça, fácil: busquemos o oposto. Porque este oposto é Deus, sem meios termos, sem o mínimo porém. Eram duas as minhas opções: seguir toda a palavra de Deus ou ser mau. Era assim que eu via a coisa toda, era assim que eu me sentia cobrado em relação a Seus dogmas. Acredito ou vou para o inferno.

Muitas opções, como descobri depois, são um passo para o fracasso. Nossos instintos atuam mais em nossas escolhas do que nossa razão. Quando eu só tinha o bem e o mal como alternativas, cravava fácil, fácil, o X na opção um. Depois, a vida ficou confusa demais e bem e mal passaram a se embaralhar de forma pouco compreensível. Sem a religião, acabou de vez a certeza de se estar fazendo o certo.

Comparando a vida passada com a presente, fica uma dogma: a religião fazia a felicidade mais simples. Bastava seguir aquelas regras, Suas regras, que se chegava lá.

Só que hoje eu me sinto mais humano - o que chega a ser contraditório. Mas isso fica para depois.

Terça-feira, Novembro 29, 2005

Morremos todos e fomos para o céu.

Vinte e uma horas mais dez minutos do dia vinte e oito de novembro se passaram até que que o grupo musical norte-americano Pearl Jam iniciasse Long Road. Quando a derradeira nota de Yellow Ledbetter ecoou da guitarra de Mike McCready através do ginásio do Gigantinho, ainda restavam mais quinze minutos desse dia vinte e oito de novembro. O Pearl Jam, aqueles caras que um dia nos fizeram vestir camisas de flanela num país tropical, havia, enfim, tocado em solo brasileiro. Vedder cantava em Long Road, "I have wished for so long/How I wish for you today". Morremos todos e fomos para o céu.

Entre Long Road e Yellow Ledbetter, Vedder arriscou ler eternos agradecimentos e desculpas pela demora em aparecer no país numa espécie de português de Seattle. Marky Ramone, que se encontrava em turnê pela capital gaúcha, assumiu as baquetas em I Believe In Miracles. O público cantou Parabéns Pra Você em português para o aniversariante Matt Cameron, o batera titular. Após o parabéns, com direito a bolo no palco, veio Baba O'Riley, e já deveria ser a terceira ou quarta vez que eles haviam retornado para o bis. Nós sorrimos, nós choramos, perdemos pertences, nós gritamos e pulamos e cantamos a plenos pulmões.

Não dá para imaginar ou descrever o quanto de carinho e devoção esses senhores do Pearl Jam irão presenciar Curitiba, São Paulo e Rio. Não dá para se prever o quanto de música em stado absoluto curitibanos, paulistas e cariocas irão presenciar até o dia 4 de dezembro. Não se trata de um espetáculo musical que dura algum par de horas e silencia. Estamos diante de um ato de amor, de um pacto de fidelidade. O Pearl Jam, ao sempre buscar canções que traduziam o mundo em seus licks e levadas, não cativou apenas as nossas caixas e som. Nunca nos sentimos traídos, porque sempre se tratou da música em primeiro lugar. Logo, eles transcendem as próprias músicas, o significado de suas canções. Éramos todos irmãos ali.

Assim, a primeira apresentação duma banda que pediu desculpas (vamos repetir) ao público por demorar tanto para se apresentar diante dele não contar com seu maior sucesso suceso radiofônico (Black) nem com seu hit mais recente (I Am Mine) continuará eterna e perfeita por todo o resto de nossas vidas. Eu queria ouvir Nothing As it Seems, Red Mosquito, Dissident, Parting Ways, Of The Girl, Faithfull, Low Light, Wishlist, Light Years e mais uma penca de músicas. Coisa pra mais 2 dias de shows. Mas vocês não poderiam ser mais felizes que eu em Betterman, I Got Id, Jeremy, Dead Man, Long Road, Animal, Go, Porch, Alive, Even Flow, Given To Fly, Corduroy. Não, vocês não poderiam.

É claro, pode ser apenas o dólar "barato" e o momento exato para shows no Brasil. Pode ser que eles retornem sempre aqui de agora em diante. Pode ser, e eu acredito nisso, que os shows restantes sejam cada vez melhores até uma verdadeira orgia transcedental coletiva no Rio. Mais da metade do público presente no Gigantinho na segunda-feira assistiria, se pudesse, a cada apresentação do Pearl Jam no mundo. Mas não nos é possível. Ademais, morremos todos e estamos no céu. Eu, desde Elderly Woman Behind The Counter In a Small Town. I just want to scream hello, my God, it's been so long, never dreamed you'd return, and now here you are and here I am, hearts and thoughts they fade away. It's been so long, guys.

Voltem sempre e mandem lembranças. Rosas em nossos túmulos, que sejam.

Quinta-feira, Novembro 24, 2005

Eu tive um porteiro chamado Zé. Era um bom porteiro, atencioso, simpático. Eu brincava com ele dizendo que um dia ele não abriria a porta depois que eu tocasse o interfone. Ele era competente, acreditem. Mas eu temia, e como temia, que ele, o Zé, simplesmente não se lembrasse do meu rosto e ignorasse minha presença no portão. Você não pertence mais a este prédio, diria o Zé.

O temor virava paranóia naqueles dias que o Zé estava rabugento e pouco me dava atenção. Sabe aquela coisa de porteiro, de às vezes fazer tudo diferente do que você espera? O carro fica sujo, o lixo não sai do lado da porta e o jornal não chega na hora. Tudo culpa do pobre Zé.

Mas eu gostava dele, gostava muito do jeito que o Zé trabalhava. Lógico que eu era uma criança para dar muita atenção a um porteiro. Mas sinto saudades de Zé, sinto saudades da forma como ele abria a porta para mim quando eu chegava no prédio.

Domingo, Novembro 13, 2005

VII

Nas grandes lovistórias de amor sempre deve haver um porém, um calcanhar, um espinho. Essa era Paola. Paola era garota de programa, para os mais íntimos, puta. Tinha os olhos cansados e voz de diaba. Paola era boa naquilo que fazia para ganhar seu pão, a diaba era muito boa. Ela sabia olhar, sabia morder e o seu grande atrativo: dominava como poucas o ato da felação. Paola sabia como me fazer cair em tentação, sabia até quando me ligar.

Paola foi a minha primeira puta. E única. Eu não tinha o menor jeito, não achava as palavras, tinha vergonha da minha própria ereção diante de alguém tão menina, tão desconhecida, tão cansada. Paola sorriu, me beijou como se fosse hábito, suas mãos foram ágeis em minha impaciência. Fodi aquela mulher como se fosse minha, ela sorria, pedia mais, me deu o cu, engoliu meu gozo. Ela se vestiu me olhando arrebentado na cama, havia meses que o sexo não era tão bom daquele jeito, Luana ainda não havia aparecido na minha história.

Virei cliente. De vez em quando era ela quem me ligava, dizia que seria por conta dela, eu só precisava pagar o táxi. E aparecia com o mesmo sorriso no rosto, a unha na carne, a navalha no sexo. Luana apareceu entre esses telefonemas, o que, voltando ao primeiro capítulo desta saga, concluímos que foi com Paola que envenenei minha confiança com Luana. Na corda bamba, eu me equilibrava entre as duas, com vantagem a favor de Luana, que eu amava, ou julgava amar, ou queria amar - pelo menos com menos culpa do que amar Paola, que não me exigia amor, me exigia apenas suor e um trocado para comprar alegrias e tristezas baratas.

Era injusto com ambas, que gostavam de mim, que gostavam de me ouvir, mesmo os resmungos, mesmo os silêncios. Eu nem arriscava dizer qualquer coisa que levasse uma a desconfiar da existência da outra, vai que elas eram vizinhas ou arquiinimigas? Mulheres. O pior inimigo do homem é uma mulher enganada. Luana já havia flagrado provas de meu caso com Paola e fazia questão de me lembrar delas sempre que eu escorregava da linha, por meio de sutilezas e entonações. Paola fingia, mas não muito bem, que acreditava nas desculpas pelancudas que eu lhe dava para justificar os hiatos entre uma visita e outra - eu era um homem de muito trabalho a fazer, muitas viagens, muita solidão.

Ela me ligou no meio do meu expediente. Do jeito que falava ao meu celular, eu podia sentir sua língua envenenar meu ouvido enquanto um sorriso burocrata ostentava meus dentes amarelo-marlboro. Descrevia em palavras a minha língua contornando o seu sexo, transpirava, como ela gostaria de me morder o falo, chupar as bolas. Meus colegas de trabalho estavam ali na sala, meu chefe passou e deu bom-dia. Disse que não queria gozar ali ao telefone porque comigo seria muito melhor. E disse que estava num quarto de uma pensão a meia quadra de meu endereço do trabalho, nua, molhada. Desligou. Dei cinco minutos, cinco looooooongos minutos, disse que precisava resolver algo na rua, ninguém deu atenção, meu chefe pediu até para eu trazer um lanche na volta, um salgado, um biscoito, qualquer coisa. Estava um dia devagar na redação, a diaba sabia até a hora de ligar.

Desliguei o telefone. Mergulhei na calçada, Pensão Avelar, quarto 312. A porta apenas encostada, um cheiro de coisas velhas, passei a chave e os trincos. Um ventilador no teto, janelas encostadas, Paola sorria. Paola sorria.

A carne é fraca, meu bem, a carne é fraca.

Sábado, Novembro 12, 2005

A pornografia deixada de lado pela ternura

Há uns cinco anos eu comecei um romance com a descrição de um estupro. Acho que até já postei o comecinho dele aqui, há muito tempo. Na época, achava aquele texto erótico demais. Achava que havia conseguido colocar no papel uma carga de sensualidade impressionante, sem ser pornográfico.

Desisti deste romance, três ou quatro capítulos depois, por acreditar que eu não tinha maturidade, na época, para terminá-lo. Na verdade, e já assumi isso para mim mesmo, eu não sabia como seguir adiante depois dos tais três ou quatro capítulos. Me coloquei numa sinuca entre um homem amargurado e uma mulher em busca de liberdade, mas ainda indecisa em relação a seus sentimentos. E eram personagens de 40 e tantos anos, com psiques bastante distantes da minha realidade.

Minha idéia original para este romance era arrumar alguém, uma mulher preferencialmente, que contasse a história pelo ponto de vista feminino. Da mesma forma que o ex-marido começava relatando, orgulhoso e catártico, que havia estuprado a ex-mulher, eu achava importante que a ex-mulher desse sua versão, provavelmente raivosa e doída, para a história.

A necessida de escrever a quatro mãos era clara: se eu achava que teria problemas em relatar em primeira pessoa os sentimentos de um homem de 40 anos, no caso da mulher, então, a experiência poderia ser desastrosa.

Mas desisti de escrever o romance em conjunto quase ao mesmo tempo que desisti do romance. Assim como eu tinha dificuldades em achar uma fórmula viável, minhas amigas, pensava, também teriam. Ficou para depois.

Lembrei disso tudo porque sentei na cadeira esta noite, comecei a escrever um conto puramente pornográfico e descobri que não tenho essa capacidade. E quando falo de pronografia, é pornografia mesmo, nada de sensualidade, nada de sugestões eróticas. Como diria um velho amigo: pornografia é pau na buceta, o resto é um jogo de tabuleiro da Grow.

Meu problema é que palavras como pau e buceta não saem de minhas mãos naturalmente. Eu teria que fazer um certo esforço para escrever qualquer texto com a expressão "então meti o pau a fundo em sua buceta" que ficaria claro para qualquer leitor que aquele conto é apenas uma tentativa, nada demais. E eu estou muito velho para perder meu tempo com tentativas, sabem?

Enfim, eis o esboço do que seriam os quatro primeiros parágrafos:

"Eu tinha um Mustang vermelho, conversível sempre que eu quisesse tirar onda e que não estivesse chovendo. Passei na porta do colégio, um colégio de classe média metido a conservador, com um santo no nome. Sabrina entrou no carro sorridente como sempre, piscou e disse um "oi" adocicado que, se não deixou meu pau duro naquele instante, fez com que meu pêlos se arrepiassem. Respondi em tom cafajeste, meio imitando o Pereio num daqueles filmes da madrugada. "Oi, gata, você está linda hoje"."

"Iria levá-la para jantar antes de qualquer outra coisa, mas sua saia estava curta demais. Eu via suas pernas depiladinhas, esticadas no banco do carro. Via parte de suas coxas encostarem uma nas outras e não parava de imaginar o que estaria me esperando naquele meio. O tesão definitivamente falou mais alto que a razão quando percebi que ela não usava sutiã por baixo da blusa preta com o logotipo de Cats e do casaco jeans desabotoado."

"Acho que ela percebeu meu desconforto e minha ereção. Safada, mexeu no cabelo comprido e loiro e perguntou com uma pausa proposital entre o advérbio e o pronome: "Então, onde você vai me levar?" As mulheres gostam de serem dominadas, subjugadas, usadas. Sabrina me confessou mais tarde que, ao se masturbar, fantasiava com uma orgia em que ela fosse a única mulher. Seriam quatro paus e apenas sua buceta para ingerir toda a porra que pudesse ser gerada. Ela sonhava com sexo anal, vaginal e oral ao mesmo tempo, enquanto sua mão segurasse outro pau, o maior de todos".

""Você confia em mim?"; "Já estou no seu carro, tenho opção?"; "Eu posso parar para você saltar, mas duvido que você queira isso."; "Definitivamente não quero, mas também não precisa ser tão convencido"; "Oká, mas vamos ver se você realmente confia em mim". Coloquei minha mão direita na sua coxa esquerda e apertei com ternura. Ela não me impediu. Comecei a subir e antes mesmo de tocar em sua calcinha, a respiração de Sabrina ficou mais ofegante e audível. Como eu imaginava, a calcinha já estava caramelizada. Os dedos indicador e médio penetraram rapidamente pela dobra entre sua coxa e a calcinha de uma vez e senti seus pêlos úmidos e vastos. "Tira isso, vai." Ela obedeceu e ficou sem calcinha ali mesmo, no meu Mustang com o capô aberto. Fiquei passando meus dedos em volta de seu clitóris por alguns segundos e ela gemia baixinho. Era como se sua boca gemesse bem perto de meu ouvido. Enfiei então um dedo na sua buceta, segurei toda a vulva com a palma de minha mão e, depois, lambi meus dedos. "Agora, acho que eu já sei para onde vou te levar"".

Só consegui ir até aí. Quando reli esses parágrafos e vi que havia escrito ternura num texto supostamente pornográfico, descobri que eu não sei escrever pornografia. Mas, como diria outro amigo, keep walking. Qualquer dia, tento de novo.

Terça-feira, Novembro 08, 2005

Tempos Modernos

Oh, my baby, she's so cool.

Segunda-feira, Novembro 07, 2005

Sonhadores

Leandro e eu vamos para Paris aproveitar a atual rave.

Mas vamos com essa moça.

Je suis un revolutionaire, baby

Andy, arrume o celular da Eva Green e veja se ela topa entoar a Marselhesa com a gente pelos quartiers e boulevards da Cidade-Luz. Aparentemente, o povo de lá se cansou do silêncio, da simpatia e de sapos pela goela. Os franceses são conhecidos como baderneiros da melhor qualidade, desde 1789. Num acesso de fúria de sua população humilde combinado com o esperto senso de timing de sua burguesia, cabeças enfeitadas com perucas e pó-de-arroz rolaram em plena Praça de Greve. "Acordem, filhos da pátria, o dia da glória chegou" são os versos iniciais do hino francês, forjado nos dias da Mãe de Todas as Revoluções, assim como sua bandeira tricolor que retrata os ideais do Iluminismo - Liberté, Egalité, Fraternité.

Se pareço empolgado com os acontecimentos mais recentes vindo da França, é porque a História nos ensinou que lá as coisas são mais sérias. Pode ser apenas um estopim, mas pode não ser. Em 1968, estudantes se juntaram aos trabalhadores nas ruas parisienses e pediram mudanças. "Vivam as crianças e os malandros", diziam alguns dos geniais gritos e rabiscos de protestos. Naqueles anos, a mudança de ares no mundo estava tangível. Desmanchou tudo no ar. Os estudantes voltaram às aulas, trabalhadores ganharam um abono qualquer e os anos 60 terminaram.

Vivemos hoje num mundo conseqüente de 1789 e 1968. A impressão é que estamos atingindo alguma espécie de limite, de clímax, de gota d'água. A minha impressão, não sei se é a do Andy ou a sua. O abismo entre ricos e pobres, o fosso natural do capitalismo e da luta de classes, segue aumentando. Nunca tantos tiveram tão pouco. E vice-versa. Bukowski escrevia lá pelos idos de 68 que o homem comum simplesmente não aceitava mais tanta merda. Pelo menos os imigrantes argelinos das periferias francesas já não querem mais suportar subempregos e racismos.

A França tem o perigo da política reacionária viva desde as eleições presidenciais de 2002, quando Jean-Marie Le Pen chegou ao segundo turno. Meninas islâmicas estão proibidas de freqüentar aulas com o véu sobre suas faces, a despeito do crucifixo da Santa Madre Igreja poder ornamentar os (inarravelmente belos) decotes das fracesinhas. Se a gente somar reacionarismo com desigualdades sociais, implicâncias religiosas e o Zinedine Zidane, dá pra ver que a coisa pode desandar na França - e contaminar a Europa.

Os observadores não falam ainda em guerra civil ou levante popular. Mas as notícias já trazem policiais baleados, carros e ônibus depredados e um morto. É bom prestar atenção não apenas nas manchetes, mas nos miolos das notícias. Esses franceses não costumam brincar em serviço com coquetéis molotov nas mãos.

Andy, não bobeie, a Eva Green, rápido! Dizem que essas européias se amarram numa conjunção interracial.

Sexta-feira, Novembro 04, 2005

Charuto e bagaceira

Leandro, neste momento eu queria estar em Belém, só para compartilhar contigo alguns sentimentos. Cheguei em casa sozinho e bebi duas doses de uma bagaceira que meu pai ganhou de um amigo. Acendi um cohiba e fumo agora, enquanto ouço Alceu Valença. Aliás, ouvi Alceu Valença o dia inteiro e até escrevi uma coisa inspirada em uma de suas músicas, mas não vou publicar isso aqui.

A melhor sensação do mundo, Leandro, é a solidão. Eu sempre soube disso. Mas, ao mesmo tempo, o pior sentimento também é a solidão. Sentimentos e sensações são coisas distintas, às vezes até complementares, mas nunca semelhantes.

Escrevo esse post entorpecido. Por álcool e um cohiba. Estava na Matriz, dançando e bebendo cerpinhas. Quantas vezes já terminamos nossas noites lá dançando e bebendo cerpinhas, God? Isso é muito foda, né?

O charuto que fumo foi comprado no mercado negro cubano. Os charutos lá são bastante caros. Como opção há sempre um ou outro cubano que diz trabalhar numa fábrica e roubar alguns legítimos habanos para revender no mercado negro. Conheci alguns desses na rua, confiei em um e me meti numa espécie de cortiço de Aluizio Azevedo para arriscar a compra. Se fosse pego, o máximo que poderia acontecer comigo seria um paredón em algum canto de Havana. Mas, tudo bem, morrer assim seria onda demais. Não se esqueça de apagar meu perfil no orkut, por favor.

No cortiço, entrei por corredores escuros seguindo o cubano. Definitivamente, se ele quisesse me matar, roubar minha grana, ou comer meu lombo, poderia fazer sem qualquer problema. Poderia até escolher a ordem ou combinação que mais fosse conveniente.

Mas o cubano foi bacana e me vendeu duas caixas de charuto por U$ 60 cada, um terço do preço oficial. Seria uma barganha das melhores se não houvesse o risco de os charutos serem falsos, feitos com folhas de bananeira. Prefiro acreditar que fumo, agora, um legítimo.

Nada melhor para um homem terminar a noite do que a companhia de um charuto cubano e uma bagaceira portuguesa. Faltaria apenas uma mulher que o amasse, mas isso talvez seja querer demais. Tenho apenas mais quatro dias de férias, Leandro. Quatro dias para resolver muitos problemas.

Termino esses devaneios com um verso de Goethe:

"De tanto ouvir, o ouvido vira crença
O coração é um mistério sem fim.
De um modo ou de outro, não há desavença
(Pecamos sempre) entre você e mim.
Piscamos o olho - Que o bem vença!
(Mas não precisa ser tão sério assim)
Se à nossa frente pintar o Diabo
sempre uma força vai torcer-lhe o rabo."

Terça-feira, Novembro 01, 2005

"We all need someone we can dream on..." (em Fernando de Noronha)

Descendo pela Vila dos Remédios chega-se ao bar do Cachorro, uma das poucas opções de diversão de Fernando de Noronha, fora as praias. De dia, valia pelos bons sanduíches naturais, vendidos a preços honestos, e por uma música ambiente recheada de MPB. À noite, o bar ficava cheio de nativos e turistas dançando forró. O atendimento demorava um pouco, mas era acima da média da ilha.

Eu estava hospedado na Vila do Trinta, separada da Dos Remédios pela BR 363. Sempre me perguntei se existiam tantas rodovias federais cortando o país para chegar a quase quatro centenas delas ou se pulam alguns números de acordo com o que indicam os astros. Um dia eu ainda pesquiso sobre o assunto.

Na minha pousada, a Monsieur Rocha, havia um simpático, mas frio, café na recepção, com pão doce, pão de queijo e biscoitos de água e sal. Havia chá também. Era ali que eu parava para matar a fome depois de uma baseado ou a ressaca depois de uma bebedeira. Posso dizer que aquele café frio foi fundamental para minha viagem.

Fiquei sete dias em Fernando de Noronha, mas foi como se tivesse ficado dois meses. Não por monotonia, deixo claro. É que realizei tantas coisas que não acharia possível em apenas uma semana, se me perguntassem dias antes. O whisky não me deixava dormir. Na última vez que viajei para uma ilha, Cuba, o rum e os charutos me mantiveram acordado. Também passei uma semana lá e usei o mesmo bloco em que escrevo este texto para escrever outros. Vejam só, havia boas idéias nunca concluídas:

"Os cubanos passaram a pedir dinheiro. Deve existir uma conspiração e eu sou o foco central dela. Ontem, quando cheguei, só conversavam comigo simpaticamente, mas não pediam nada. Hoje, acredito, todos se comunicaram entre si e sabem que eu sou um alvo. Sou o brasileiro que gosta de futebol e que jura ser vizinho do Thiago Lacerda. O papo é sempre o mesmo e envolve filhos e pouco leite no libreto mensal. Passei a me vestir mal o que, no meu caso, não é exatamente difícil. Os cubanos modernos, porém, não usam barba e a minha à la Guevara entrega minha origem estrangeira. Maldita modernidade".

"Conheci um argentino professor de kitesurf que estava há um mês em Havana para dar aulas. E, vocês sabem, se não tenho paciência para surfistas brasileiros, não seria um kitesurfista argentino que iria me cativar. Sim, assumo o preconceito. Além do mais, o cara só queria falar das praias cubanas e brasileiras. ¿Por qué sólo estuve em Habana? Porque eu quis, porra. Outra argentina, uma pequenina vestindo blusa branca de manga comprida, sentou na minha frente e me olhava com a discrição típica dos latinos. Ou seja, nenhuma. Foi um pouco constrangedor, mas ela era bem bonita, admito. Estava à vontade na cadeira, sentada em cima de uma das pernas, enquanto comia macarrão com salsichas vermelhas. Apaixonante."

Viajei para Cuba exatamente um ano antes de Noronha, coincidentemente. Em ambos os casos, as viagens foram marcadas em cima da hora e não estavam no meu planejamento para o ano. As circunstâncias, porém, foram distintas, mas isso eu deixo para contar outro dia.

Numa das noites em Noronha, a terceira de minha estadia, conheci uma francesa, chamada Jeanete, justamente no Bar do Chachorro, aquele depois da descida da Vila dos Remédios. Ela viajava com uma amiga, Francie, ou algo assim, e bebia, tímida, uma cerveja quente na mesa mais afastada da pista de dança quando a vi pela primeira vez.

Eu não tinha nada a perder. Era casado, sim, mas minha esposa ficara no Rio menos por trabalho do que por falta de saco para aturar o que ela denominava minhas "aventuras". Sabem aquelas chamadas para filmes na TV? "Eles vão enfrentar diversos perigos e viver grandes aventuras". A escrota sempre me sacaneava, dizendo que eu era um eterno personagem da Sessão da Tarde. Pior para ela, pensei.

Meu francês não era dos melhores, mas eu e Jeanete nos comunicávamos bem em inglês. Minha aproximação, porém, foi em português.

Fui até a mesa dela entre um xote e outro, na cara-dura mesmo. O óbvio seria convidá-la para dançar, mas sou péssimo dançarino e poderia pôr tudo a perder assim. A dança ficaria para depois. E o menos óbvio, todo mundo sabe, surpreende e causa boa impressão.

- Oi, eu me chamo André, André Miranda. Sou jornalista, carioca. Pensei que você seria a companhia perfeita para pegar um cineminha amanhã.

A Francie, ou algo assim, dançava com um nativo, meio animada, meio desengonçada. O momento foi perfeito, mas, ao ignorar que Jeanete não entendia português, minha piada idiota sobre o cinema inexistente na ilha não foi compreendida. Ainda bem.

No dia seguinte, como combinamos entre alguma dança e alguns beijos naquele forró, acordei cedo e fui buscá-la em sua pousada na Floresta Nova com um bugre alugado. Depois de dirigir uns dez minutos, caminhar um pouco e descer pela fenda na encosta, chegamos à Baía do Sancho antes das 7h.

Ficamos duas horas completamente sozinhos na praia e após os primeiros vinte minutos já estávamos nus, trepando na areia ou no mar. Jeanete me deixava excitado me chamando de mon cheri e pedindo com doçura coisas em francês que definitivamente eu não compreendia. Interpretei livremente e fiz tudo o que quis com a francesa, sem pudores de ambas as partes. O clímax aconteceu em cima de uma pedra, com seus joelhos sangrando. "Let it bleed", ela disse. E, caralho, como eu gosto de Rolling Stones. Gozei três vezes, direto, em cima da pedra. Nunca tinha acontecido de eu gozar três vezes, assim, direto, sem parar. Não pude deixar de cantarolar "if you want it, baby, you can bleed on me".

Aquele, o dia da Baía do Sancho, era seu último em Noronha. À tarde, levei Jeanete e Francie, ou algo assim, para o aeroporto. Nos despedimos com um beijo e marcamos de nos encontrar dentro de um ano na Grande Canária, Espanha. Sempre uma ilha. À noite, tomei duas doses de whisky, acendi um baseado e voltei ao Bar do Cachorro. Não dancei. Só consegui ficar sentado olhando a lua refletindo no mar.

Domingo, Outubro 30, 2005

Um texto ruim

Em hipótese alguma deve-se menosprezar o sofrimento de alguém que te ama. Eu talvez já tenha feito isso e me arrependo absurdamente. Um filósofo disse certa vez que nossas tristezas, as tristezas humanas, são certezas, enquanto que as felicidades são meras possibilidades. A explicação tem alguma coisa a ver com a intensidade dos sentimentos, mas não quero perder muitas linhas com isso. Sabido o básico, portanto, seguimos, todos nós, em frente.

Vale lembrar que eu já chorei tanto de felicidade, quanto de tristeza. E foi choro mesmo, com lágrimas caindo dos dois olhos. Se eu, um alcoólatra incorrigível descrente com a humanidade, fui capaz, qualquer um pode. Experimentem que eu garanto que faz bem. No meu caso, foram raros os momentos.

Houve uma época da minha vida em que eu me apaixonava todas as semanas. Na maioria das vezes por pessoas diferentes. Raramente fui correspondido porque minha arrogância assustava os outros.

Ao mesmo tempo, era comum que mulheres demostrassem algum interesse em mim. Não entendo os motivos, mas o carro, o Amex e a tal arrogância podem indicar um caminho para este enigma. Em outros tempos, cravaria como resposta minha aparência e capacidade sexual. Mas a idade trouxe humildade e eu nunca fui tão inseguro como hoje para laurear qualquer qualidade deste tipo. Ainda mais duas inexistentes.

Minha arrogância nos dois casos - repulsa quando apaixonado e atração quando desinteressado - me fez parecer um completo idiota durante um bom tempo. Tão estúpido que fui capaz de dizer para um garçom que não gostaria de conhecer uma menina interessada em mim porque naquela noite gostaria de ficar sozinho. Menti porque queria cultivar aparências.

Numa das últimas vezes que me apaixonei fiquei tanto tempo esperando um sinal, sem querer me revelar por pura arrogância, que perdi as duas únicas oportunidades que tive. E o sinal, este nunca veio e nunca virá. Mas o tempo pode mudar isso, lógico.

Houve um dia, apenas um dia, em que eu pensei que poderia ter feito as coisas certas. Desisti, deixei a estrada de tijolos amarelos e me aventurei pela selva numa metáfora horrenda. Fato é que gostaria de escrever coisas mais divertidas, mas a tristeza é uma certeza. Novamente, o tempo.

Antes de terminar, devo escrever que a frase lá em cima atribuída a um filósofo é minha mesmo. Criei o personagem só para dar mais credibilidade. Afinal, é tudo ficção, não tem jeito.

Segunda-feira, Outubro 24, 2005

VI

Nada é tão cínico e canalha quanto um homem apaixonado.

Rigorosamente nada. Hitler justificando o extermínio dos gentios e McCarthy torturando criancinhas negras passíveis do comunismo carrasco da pax americana perdem. Perdem feio. Eles negam seus vícios, mas a culpa lhes toma o lugar da sombra. As fotos em periódicos e as falas em ondas de rádio e televisão denunciam que mentem, ou ao menos deliram. Homens apaixonados são capazes de pão com ovo no café da manhã acompanhado de guaraná antártica sem gás com vodka diluída. Hitler não bebia. Eu tomava porres há pelo menos uma década e nem tinha chegado aos trinta ainda.

E estava apaixonado por Luana. Luana eu não sei, ela era bem malandra para seus bem vividos vinte anos. Vinte e um, para ser exato. Me beijava na hora do gozo, me fazia cafuné enquanto eu suspirava para morrer ao seu lado e me cobrava a mensalidade da ginástica que eu havia prometido. No final do dia ela invadiria minha existência outra vez, ligaria a televisão na novela, atacaria minha despensa de homem solteiro - comida industrial semi-pronta, sucos em caixa, maionese, pão, frutas e verduras de validade questionável - e me cobriria de beijos e amor e paz.

E eu me apaixonaria por cada nuance, cada vírgula, cada erro de sintaxe. Os peitos de auréola quase rosa, o bumbum suculento e bronzeado, os pelinhos com blondor no cóccix. Era a minha sina com ela, morrer de amor. Clichê barato de literatura do século XVIII para vocês, para mim o respiro de cada manhã e o desassossego de cada noite. Então, eu mentia compulsivamente chegando a enojar a mim mesmo quando me ouvia, queria me esganar, me mergulhar no fundo do Guamá com cimento nos pés, arrancar fora a minha língua, etc. Eu era um nojo, Luana merecia coisa melhor.

Ela, sentada quase deitada a conversar comigo, que lia um livro, de noite, televisão ligada no programa da Luciana Gimenez, ou do João Kléber, ou do João Gordo. Beliscava minha barriga e sorria, criança. Eu sorria, maroto. Ela perguntou, menina-mulher, o que eu faria se ela estivesse grávida, olhos nos olhos, aqueles momentos em que uma mulher não pode te ver peidar na farofa, aquele timing que pode tornar você - aos olhos dela, mané - homem feito ou menino descartável. Olhei sério, fechando o livro, claro que eu iria assumir, minha linda. Como não? (Tudo mentira, eu no mínimo, daria um jeito de fugir para o estrangeiro.) Ela não dá o braço a torcer, "Você não iria querer que eu tirasse?" Era óbvio que sim, eu não era de Belém, não pretendia morrer ali, nem ao menos tinha nascido ali, não queria um filho ali, nem mesmo com ela porque não queria filhos com ninguém tão cedo em lugar algum, vade retro, sai, passa! Lu, eu respondi de bate-pronto, eu jamais vou te pedir algo assim, eu nem tenho idéia do quanto deve ser ruim tirar um filho. Ela acariciava a própria barriga, eu pensava no estoque de camisinhas que tinha guardado no criado-mudo.

Aí ela confessou que já havia abortado, ela era muito nova, o namorado então não deveria ser muito paternal a seus olhos. Descobriu porque tinha desejos de tomar sorvete de três a cinco vezes ao dia. A tabela um belo dia falhou. O sorvete voltou regurgitado, a menstruação atrasada, os quatro testes de farmácia azularam. Estava grávida e não queria estar. O médico que fez a ultra-sonografia fez o preço. Era algo muito desumano para alguém em vias de ser mãe, o catéter, o barulho, acabou. Ela disse que não faria outra vez, ainda acariaciava sua barriguinha que eu dedicava horas e horas a beijos e cafunés e mordidas e ais e uis. Ela se levantou e foi até a bolsa, pegou um envelope pequeno, voltou para mim. Seu quase filho de 3 meses, um pequeno botão, ela chorava e meu coração cínico apertava. Verdades dóem.

Canalha, meu bem, canalha.

Terça-feira, Outubro 18, 2005

Mundo Cão

Assim fica difícil ganhar da realidade.

Segunda-feira, Outubro 10, 2005

V

Parecia tão perto que eu chorava de não conseguir tocar sua pele. Ela sentada ao meu lado sem me tocar, mexia com os dedos na areia e calava. Meus olhos na direção do mar. Meia hora ou um pouco menos se passou desse modo. Ela então disse, "E quando você volta?". Não sabia nem se voltaria, muito menos se voltaria para os braços dela. Não respondi de imediato, antes baixei os olhos e fiquei mudo. Resposta difícil, saída pela direita, "Não sei, espero que logo".

Dois meses, quatro meses, sete meses e doze dias. Apenas memória. Luana dormia e pedia para eu fazer silêncio enquanto escrevia qualquer bobagem no computador. Ela não dormia, ronronava, silêncio e volta e meia me espiava pra ver se eu não estava olhando mulheres nuas pelas suas costas. Eu não estava, não precisava mais delas tanto assim, a minha Lua era real e alegrava bem mais o homem dentro de meu espírito de menino sem saber para onde olhar. Eu tentava escrever palavras que tivessem valor em meio a tantas palavras já escritas, que alguém que chegasse a elas pudesse sentir através delas. Palavras reais, frases reais. Eu seria um rei.

De volta àquela tarde na praia, Adèle hesitou, mas segurou na minha mão em meio a um silêncio. Eu deixei seus dedos se amarrarem aos meus, como se fosse um beijo que ela gostava de dar em ocasiões especiais, que começava apenas lábios e terminava dentes. Havia pouca gente na praia no dia, um vento frio tomava conta da cidade e as pessoas preferiam se recolher em cinemas, camas, televisões e salas de estar. Uns poucos turistas arriscavam ver o mar com aquela frente fria. O sutil carinho me gritava "Não vá!", eu podia ouvir claramente entre as ondas, através do vento fino. Estávamos os dois ali para conversar mas não sabíamos como, talvez a impossibilidade de deixar para o dia seguinte nos exigisse sem filtros e nus. Era como se estivéssemos prestes a descobrir o quanto daquele nosso romance era amor e então tinha aquele medo de quem iria desapontar mais o outro, porque o nosso amor era mais romance.

Todo aquele silêncio estava nos dizendo a verdade, que havíamos pouco a dizer, apesar do tanto a sentir. Ela sabia que eu estaria partindo no dia seguinte, eu precisava do emprego, do dinheiro, de tomar as rédeas da minha vida, de sair da casa de meus pais. Eu já tinha mais de vinte e cinco anos e era homem feito, não precisava mais que Adèle entendesse ou compreendesse minhas escolhas - apenas gostaria que ela não me culpasse. Eu estava ali a seu lado e essas palavras não me ocorriam de sair pela boca, num tom sóbrio porém firme, numa fala de homem. Era o menino procurando um ponto fixo no horizonte para olhar. Ela então, feito mágica ou girassol, se achegou em mim e apoiou seu corpo no meu. Não chorou, mas diminuiu a respiração e fechou os olhos. Eu poderia mergulhar naquele mar, nadar contra a correnteza só para deixar que as ondas me trouxessem de volta depois, e perceberia Adèle me espiando forte, os músculos em ação, o sol por testemunha.

Então eu disse que iria apenas fazer o que precisava ser feito, viver. Eu preciava viver para ter uma vida. Ela escutava, o corpo no meu, olhos fechados, respiração devagar. La pétite mort. Eu preciso aprender a ser homem, disse, com essas palavras, e quando a gente é homem, tem que se acostumar a lágrimas no mundo. Acho que ali terminou nosso romance e sobrou na areia em torno de nós, aquele pouco de amor que adorna os casais que já não o são mais. Ela percebeu que dali em diante eu pretendia ser outro e ela, ainda que me doesse, ficaria para trás. Eu não poderia garantir nada, eu só queria ganhar o mundo. Se o preço a ser pago fosse a sua perda, eu seria homem para aceitar a dívida. Ela não perguntou mais nada. Ficamos em silêncio, deixando aquele amor que ainda queimava nos proteger do frio.

Luana já dormia na minha cama, na treva do quarto sob a luz do monitor. Desliguei tudo e deslizei para dentro dela. Escrever sempre me deixou com o maior tesão. Ela acordou e se virou de bruços, me olhando com o rabo dos olhos, apertou o travesseiro quando atingi o ritmo certo.

Eu te amo, meu bem, eu te amo.

Quarta-feira, Outubro 05, 2005

Monica, a mulher das bolas de gude

Conheci certa vez uma mulher que saía com bolas de gude nos seios para aparentar que seus bicos eram duros. Desnudos, sem as bolas, eram achatados, os seios. Mas não eram menos bonitos por isso. Só que a aparência vistosa que as bolas de gude lhes emprestavam chamava mais a atenção dos homens, dizia ela. Lembro da primeira vez que vi as bolas caindo de sua blusa. Justificou, envergonhada, que era uma mania desde a época de adolescente. Justificou olhando para mim, com os olhos e com o seios achatados. Belos, mas achatados.

Seu nome era Monica, a moça das bolas de gude, e foi ela que me ensinou a ter prazer em escrever. Ela dizia me aturar apenas pelas coisas que escrevia. Você, André Miranda, é muito mais encantador pelas palavras escritas do que pessoalmente. Eu sei, eu sei, Monica, mas não precisa esculachar. Um elogio não pode vir desacompanhado de uma crítica?

Mesmo com as alfinetadas de Monica, seu prazer em ler meus textos me animava a continuar. Apesar de tudo, nunca escrevi sobre as bolinhas de gude por achar que deveria evitar tocar em assunto tão íntimo e que pouco me dizia respeito. Escrevo sobre isso agora, tantos anos depois, somente por não ter mais contato algum com ela. E lamento a distância.

Monica sumiu da minha vida com suas bolinhas numa tarde de sábado. Havíamos saído na noite de sexta para um show de samba na Lapa. Era nossa terra, a Lapa. Jogávamos sinuca, bebíamos chope, cantávamos travestis e ouvíamos samba. Aquilo, sim, era vida, sabem? Alguns poderiam achar monótono, mas nossas sextas na Lapa, pós estresse de trabalho, eram fabulosas e apaixonantes.

O problema foi que eu e Monica discutimos por ciúmes - meus - naquela nossa última noite juntos. Faço uma pausa para uma explicação: não sou ciumento, mas gosto de me sentir especial. Portanto, qualquer comparação ou referência a casos passados, qualquer uma, de qualquer espécie, me fazem mal. Monica sabia disso, achava bobo e não se furtava a me provocar eventualmente. Ela dizia que não era proposital. Eu nunca acreditei.

Ouvir, então, da mulher das bolinhas de gude, que ela começou a gostar de sinuca com o segundo dos seus 25 ex-namorados, ouvir isso, entendam, não foi muito bom. A sinuca era uma coisa nossa, só nossa. Pelo menos era isso o que eu tentava acreditar. André, o tolo.

Fechei a cara, me confessei triste e ela fez graça. Riu, achou bobo, deu pouca importância. O homem das cavernas machista, então, se liberou e passei a perguntar tudo, simplesmente tudo. Quando você passou a gostar de beijos na nuca? Quem fazia melhor? E massagem no pé? E arranhões nas costas? E comer leite condensado direto da boca do parceiro? E dar o cu? Alguém te enrabava melhor do que eu?

Tomei um tapa na cara, Monica foi embora e na tarde seguinte me ligou para terminar nossa relação que mal havia começado. Tentei argumentar, pedi desculpas, mas não foi suficiente. Meu pecado havia sido grave demais, eu sei. Mas não consegui naquela noite suportar e segurar a tristeza.

Sinto saudade dela, de Monica. As bolinhas não me incomodavam. O único porém é que eu tinha um pouco de medo de engolir alguma delas numa noite bêbada e, digamos, mais selvagem. Isso poderia acontecer, achava, se eu esquecesse de acender a luz, retirasse seu sutiã e abocanhasse seu seio direito de uma só vez. Se a ação fosse muito rápida, mais rápida do que o tempo necessário para a bolinha rolar por sua bela barriga abaixo, eu poderia engolir uma bolinha.

Eu acho que essa história - e vale lembrar que ela é baseada em fatos reais - seria muito mais interessante se eu tivesse engasgado como uma das bolinhas de gude dos seios de Monica. Seria como engasgar com seu seio. Eu acharia, assim, que ela foi mais minha. Acharia, enfim, que eu havia sido especial e provavelmente teria escrito sobre ela antes.

Terça-feira, Outubro 04, 2005

.38

Desarmando-se a população, os bandidos não encontrarão mais resistência e o índice de criminalidade irá aumentar. Grande argumento. Onde está a minha Magnun?

Vamos esquecer que na campanha pelo "Não" existem nomes da categoria de Jair Bolsonaro ou Luiz Antônio Fleury Filho, vamos deixar pra lá que o Estado tem o dever de combater a criminalidade, vamos relevar que eu, você e a grande maioria da população que nunca deu um tiro em alguém na vida simplesmente não sabe como se matar alguém. Claro, todos temos o direito de nos defender - esse direito se estende a policiais que se valem de sua otoridade para nos extorquir ou quando flagramos vossas excelências com as cuecas recheadas de dinheiro nosso, correto?

Pelo que eu entendi, agora é guerra. Se o lance é armar a população para combater a bandidagem, o recado foi claro. Search and destroy. A segurança é um cano fumegante, já disseram.

Domingo, Setembro 25, 2005

IV

A chuva era implacável. Vinha do nada para nos punir ou apenas nos lavar ou quem sabe como tempero e solvente naquele grande guisado de asfalto e carros de som e vendedores ambulantes e selvagens de óculos escuros. Após a chuva, o calor seria ainda menos tolerante. O calor expande os corpos e a dilatação irá nos unir, pelo olhar, pelo cheiro, pelas gotas de suor, pela cachaça barata, pelo tempo que corre e a tudo irá fazer sucumbir, sem perguntar se alguém irá chorar ou esquecer suas memórias.

Não existe Belém sem a chuva. Após seis meses onde as nuvens descarregam seus excessos todos os dias, você já ultrapassou a curiosidade, a dúvida, o susto, a revolta e a resignação. Torna-se paisagem ou apenas outro obstáculo que você precisa aprender a enganar. Olhar para o céu antes de ir ali na esquina comprar cigarros, jogar na loteca ou negociar pó pode significar a diferença entre a vida e a morte. As ruas, e particularmente a minha, alagam, os ratos aparecem feito em barcos que naufragam, os bueiros vomitam nossa cagada de tratar uma cidade tão porcamente a nossos pés. Não se desafia o céu em Belém, a não ser que você caminhe sobre as águas, coisa que só um cabeludo e um kriptoniano foram publicamente ditos capazes de fazer até hoje. O cabeludo e o kriptoniano se estreparam de modo lendário, um pregado numa cruz e açoitado até tombar, outro desapareceu no limbo duma caverna secreta dum rapaz que usava cueca vermelha por cima de uma calça jogging azul com botas vermelhas e cinto dourado.

Eu estava debaixo duma marquise e dentro daquele pequeno caos que se transformara o outro lado da calçada da esquina de casa. Impossível atravessar a rua sem correr o risco de ser eletrocutado ou testar se sua pele era à prova de doenças lindas como leptospirose e vá lá saber o que havia naquela água corrente pelas calçadas e ruas. Pensava que talvez não havia fechado a janela do apartamento, e isso seria o pior dos pesadelos. Crianças passavam correndo, crianças gostam de chuva, crianças são capazes de gostar até de lama e merda se a elas for oferecido com um sorriso. Nós, adultos, apenas deixamos de ser crianças a maior parte do tempo para nos tornarmos idiotas que bebem demais para sorrir de menos. Crianças brincam e tropeçam e levantam correndo naturalmente. Nós precisamos de solventes químicos.

Eu também precisava de Luana. E de um guarda-chuva eficiente ou quem sabe um bote salva-vidas. Luana era capaz de me sorrir e dizer que sempre chovia quando fazíamos o tal do amor, e nem amor era ainda, era apenas uma boa trepada entre duas pessoas que se gostavam muito. Ela via a chuva cair e sorria, sempre chove quando estou aqui, e rolávamos pela cama feito gatos ou novelos de lã. Ela mordia e arranhava. Em Belém chove 340 dias por ano, mas Luana não precisava saber ou não se importava, ela me amava e aquela chuva era o nosso amor lavando a sujeira do mundo, refrescando a alma da rua, cobrindo aquela cidade de beijos. Era agosto. Luana adorava, porque iria chover sempre que nos encontrássemos. Encolhi o corpo e me pus a caminhar o quarteirão até o meu edifício. Logo fiquei encharcado pelo meio da rua, carros e ônibus me empoçando sem perdão, a pequena vingança dos motores contra aqueles que contrariam a revolução industrial e andam sobre seus pés. Podem me molhar o quanto quiserem, nenhum de vocês e seus possantes conhece Luana nos dias de chuva. E chove 340 dias por ano nesta cidade. Eu sorria e me molhava.

Agosto, meu bem, agosto.

Sexta-feira, Setembro 23, 2005

Amor rima com dor ou Falando de mulher em mesa de bar?

"Surpreendente mesmo é chegar num bar, encarar, dizer "cara, está tudo errado entre a gente", sentar, conversar, beber, resolver e sair dali com a certeza de que tudo vai ficar bem, sem mesmo lembrar que o papo começou com a certeza de tudo estar errado."

Não fui eu que disse isso, mas isso pouco importa. O ensinamento veio de um amigo num bar, dois dias depois do tal acontecido. Ele contou, também, que o problema dele era não ter conseguido criar ainda um apelido fofo e original para ela; e que o problema dela era não ter problema para ele.

Não se apoquente, sente-se, calma que eu explico. A perfeição não presta, meu amigo sabe, mas os problemas dela ele não considera. Desses, faz graça e, até, rima. Apaixona-se por problemas e defeitos, confessa. E o apelido ainda sai num sonho, graceja.

Questiono a razão de sua penúltima afirmação. Como diabos um defeito pode ser mais interessante que uma virtude, um olhar, um sorriso? Como pode ser mais apaixonante? Defeitos deveriam afastar. Problemas, aborrecer. Questiono em vão.

Sua resposta não é convincente, mas ao alegar o amor como explicação, confesso que não tenho argumentos e desisto da discussão. Digo, porém, que ele nunca brincou de dizer as coisas boas do outro, para saber quem consegue lembrar de mais detalhes.

Digo, também, que ele não sabe identificar todas as marcas, pintas e gestos porque, gestos, pintas e marcas não estão contidos no conjunto dos defeitos, como se sabe. Não basta acender um baseado, e trepar para curtir a vida. Isso é bom, lógico, mas feito assim, sem nada além, é meio sem razão.

Surpreendente mesmo é chegar num bar, abraçar, dizer "cara, não há nada errado entre a gente", declarar, arrasar, beber, fuder e sair dali com a certeza de que tudo está bem, sem mesmo lembrar que o papo começou sem a certeza de tudo ficar errado.

Os dois surpreendentes, definitivamente, são convincentes.

Domingo, Setembro 18, 2005

Os crisântemos que não eram verdes

Certa vez eu amei uma mulher que me disse que não gostava de receber flores com a justificativa de que ela, a mulher, não sabia cuidar de nada vivo. Ela me disse isso logo depois de eu lhe entregar um vaso com crisântemos. Tive vontade de perguntar o que ela fazia comigo, então, já que não seria capaz de cuidar de mim. Eu me contive, porém, apesar de ela não ter se contido no momento daquela revelação.

Prometi a mim mesmo, naquele dia, que não presentearia uma mulher com flores novamente. Radical decisão tem a ver com o esquecimento da cor dos crisântemos. Eu nunca esqueço uma cor, principalmente uma que tenha algum significado. Escolhe-se espécies de flores ao acaso, mas nunca sua cor. Ter esquecido qual a cor das flores foi sintomático, acreditem.

Ao recusar os crisântemos, aquela mulher causou em mim mal e bem irreversíveis. Explico. Me desiludi, de certa forma, com minha capacidade de conquistá-la, mas, ao mesmo tempo, achei válido comprar o desafio. Chegar a ela com as flores não havia sido tarefa simples e eu não poderia desistir sem que ela aceitasse o presente. Por mais sofrimento que sucessivas insistências e recusas pudessem me causar.

Vivi, então, dia após dia, um processo doloroso para provar que ela, aquela mulher, poderia cuidar de alguma coisa viva. Que fossem as flores ou que fosse eu. Foi um bom tempo brincando de "Noite dos Mascarados", a música do "quem é você?". Queria saber seu jogo, morrer no seu bloco e arder no seu fogo. Não me contentava com um verso apenas.

Outra vez, outra mulher que amei apareceu com uma blusa verde. Ela, a outra mulher, não a vestiu para mim mas, para mim, era como se tivesse. Não por causa da blusa, que poderia ser qualquer uma, mas por causa do verde. Eu poderia até esquecer qual teria sido o modelo de blusa, mas nunca esqueceria do verde.

Os crisântemos, por exemplo, não eram verdes, tenho certeza. Sei disso porque o verde sempre foi minha cor predileta.

Terça-feira, Setembro 13, 2005

III

Ela ligou e disse que estava a caminho. E perguntou se eu tinha algo para beber, havia sido um dia terrível, apesar de sábado, apesar de verão, apesar de sol. Eu tinha rum, Deus me perdoe, mas eu tinha uma garrafa de rum fechadinha, quase nova, zero bala. Eu pude ver o sorriso dela do outro lado da linha. Dois pecadores numa cidade quente e suja. Luana disse que chegaria em pouco tempo, só deixaria a sobrinha em casa ou algo assim. Fui me arrumar para aguardar minha chiquita e nos divertirmos, Luana sempre me divertia, mesmo sentada sobre minhas costas espremendo minhas espinhas e cravos ou apenas lendo o futuro na minha tatuagem.

Tomei um banho expresso, deixei a água escorrer pelos meus cabelos quase grandes e quase bons, o que os classifica como curtos e ruins. Mas eram meus e por algum motivo que jamais irei entender, eu gostava deles daquele jeito, de passar a mão por sobre a nuca e sentir os alvéolos deles em meus dedos. Nada de bom vem de graça neste mundo, nem estes prazeres diminutos. Era por esta época que começavam a perguntar quando eu iria cortar aquele cabelo, primeiro com discrição, insinuações, gracinhas. Depois vinha a cobrança, o cabelo era horrível, você está que parece um marginal, está precisando de dinheiro pra ir num barbeiro?, quando você vai cortar essa palhaçada?, etc. Luana já estava saindo da fase um, já não gostava tanto de mim com o cabelo rebelde solto e livre.

Ela chegou com um brilho nos olhos. Oh, yeah, baby. Let's fall in love all over again. Luana, tão menina, era a provável mulher da minha vida, não havia nada de Belém que pudesse ser tão bom quanto a sua presença ou o seu abraço ou a sua respiração. Preparei as bebidas, ela soltava risinhos cúmplices de menina arteira, me beliscava, brincava com o controle da tevê. Lamentei não ter maconha, o momento pedia um beck, a fumaça, o doce da larica na garganta e o desejo em cada após. Lamentei não ter conhecido Belém antes, ter estado longe das ruas e noites e mãos que me levariam até aquela inevitável Luana, que derramava o rum em minha boca cuspindo da sua e sorria e me beijava o sexo.

Ela parou e me olhou nos olhos, no meio daquilo tudo, nós dois sem direção e nos agarrando náufragos. Disse que me amava e que morreria se eu não a amasse, os meus olhos assustados e míopes a testemunhar aquela confissão inesperada. Era demais para um pobre diabo que passava dias a digitar num teclado frases e mais frases que nem sempre eram lógicas, mas apenas frases que deveriam ser ditas a quem as desejasse ler. O jornalismo não era a profissão mais glamurosa da nossa época, estávamos a anos-luz dos enólogos, dos fotógrafos da Playboy e de alguns pilotos de corridas. Disse e me beijou chorando, decerto a bebida influenciou na cena, mas diziam que in vino veritas e os advogados e legisladores tão bajuladores de latinismos deveriam considerar o consumo de álcool como algo revelador da personalidade do sujeito, não algo que falseia a hipocrisia social da sobriedade. Abracei Luana como jamais poderia abraçar qualquer outra luana neste mundo e fiquei calado a sentir aquele amor que ela jurava passando como recibo a própria vida. Eu que gostava de ser hiperbólico achava demais moça tão formosa se matar por mim, mais bêbado que escritor, mais burocrata que jornalista, mais surdo que músico.

Demais, meu bem, demais.

Quinta-feira, Setembro 01, 2005

II

Luana nua na cama e apenas uma calcinha de algodão branca feito a neve me separando de toda a glória do mundo, em Belém do Pará. Seis da manhã. Era pouco e nenhum outro mortal poderia estar mais feliz, exceto aquele varão em meus sonhos de adolescente que com o olhar convencia a pequena ninfa a se despir daquele mínimo pudor e o dia apenas começava neles dois, cresceram e se multiplicaram, como se multiplicaram. De todo o corpo nu naquela manhã de sexta, a calcinha de algodão sobressaía, era ela que me despertava os pensamentos. E Luana dispensa comentários, tinhas as costas mais bonitas de se morder do mundo. Mas enfim, poetas são pessoas perturbadas e eu pensei numa poesia pra Lua, aquela Lua de neve e algodão e santidade.

Ela resmungou que eu não a deixava dormir nunca. Mentira, há meia-hora eu estava roncando, nem... Ela ignorou a desculpa e se virou em conchinha levando um braço meu junto dela, que ela agarrava feito bicho de pelúcia e, que legal, era uma forma de dizer que gostava de me sentir perto no sono, eu encostei meu corpo no dela, o corpo todo sorrindo, ela gosta de dormir comigo, ela gosta. A pele morena, os cabelos mais que negros, os olhos quase orientais, os pelinhos blondor no cóccix, ui!, eu era apenas humano e nem era tão poeta assim, era mais bêbado e prolixo do que versado, seis da manhã e aquela mulher que tinha pedido que meu suor e meus músculos e minha respiração desesperada condensassem dentro dela pela madrugada, goza, ela pediu num suspiro, goza, ela mordia dentes e apertava e o que mais eu poderia fazer? Poesia tem hora, muchachos, aquilo ali era além, era o mais, gozei. Dormimos. E agora, acordávamos, ou não.

Ela voltou a dormir, eu não. Dormir perto de mulher não era a minha especialidade. Só consigo dormir sozinho, quando junto eu engano, rolo, troco de posição. O sono me ignora e fico observando o que elas sonham, a cor que elas vestem. Fiquei junto dela, olhos fechados, até ela dormir e dormir. Levantei e fui até a janela ver o mundo real, as pessoas se espreguiçando na calçada, os cachorros à toa na vida, os carros rumo ao nada. Barulhos da manhã, acendi um Marlboro lights, a fumaça se foi e fechei os olhos, precisava cortar as unhas e dar um trato na barba. Precisava de dinheiro. Precisava duma vitrola. Precisava aprender a tocar um instrumento antes de morrer e eu morreria qualquer dia daqueles, pobre Lua, tão linda e já viúva, deixaria a calcinha de algodão sobre o caixão, a calcinha e lágrimas e seu perfume e o rosa que eu gostava de morder por sobre aquele coração que talvez me amasse, e, se não amasse, eu o amava da mesma forma, morria por aquele amor barato por sobre a minha cama enrolada em meus lençóis, meus travesseiros.

Esse mundo é um moinho, me diria bêbado meu amigo André, esse mundo... é um moinho. Aí a gente mataria aquele copo, aquela garrafa, aquela noite, aquele bar e cada qual, ele alto, eu pequeno, ele branco, eu mulato, ele Josilele, eu Luana, cada qual se colocaria a circular por aí, nas rodas deste moinho, nas pás deste mundo, oh, just an old sweet songkeeps Georgia on my mind. Belém anoiteceria em nós, Marajó longe, a umidade da noite, as ruas com cheiro de gente suada e chuva e ratos e temperos, a gente rindo de qualquer bobagem, as putas nas calçadas ganhando seu pão amassado e cuspido de cada hora, os mendigos pelas praças e pontes e cruzamentos e nada parecia ser tão real quanto a última tragada naquelas cinzas, mais um dia, mais notícias, mais e-mails e telefonemas e desmentidos.

Fiquei vendo Luana despertar. Não havia nada que pudesse ser melhor. Digo, havia, mas a gente precisa saber perder umas pra ganhar outras. Fiquei na janela e vi Luana despertar. Bom dia, amor, bom dia.

Segunda-feira, Agosto 29, 2005

Desconstruindo o dogma

Esse blog não tem mais o mesmo número de leitores de outrora, quando recebíamos dúzias de comentários por post - a maioria, estúpidos, comentários e posts. Então está na hora de olhar para o próprio umbigo e ver onde erramos em nossa recente trajetória. O Inventando Dogmas, neste momento, fica de quatro para ser enrabado com gosto e força. Fiquem à vontade que eu sei que dá tesão.

Nossa problema talvez seja todo esse alarde de que as coisas escritas aqui são pura ficção. Vocês sabem que é mentira, né? No meu caso, pelo menos. Eu estou por aí, tanto nos meus textos, quanto nos do Leandro. Não é o andreocentrismo voltando, acreditem, mas a comprovação de que não existimos se não nos enxergarmos nas coisas. Eu não consigo me ver, mas consigo ver meu reflexo no espelho, sabem? E há espelhos por todo o lado.

Eu acho, e acho mesmo, que eu não reflito os protagonistas dessas histórias. Eu seria um herói ultra-romântico, com necessidade de sofrer por amores impossíveis. E se heróis já são chatos, esses, então, seriam insuportáveis para os leitores. Isola, vai.

Estou mesmo nos detalhes, junto com a compreensão dos textos. Porque um bom texto se define nas vírgulas, nos parágrafos, nos pontos. O entendimento está no que não foi escrito, assim como a foto está naquilo que não foi mostrado.

Porque a literatura, mais do que a arte de escolher palavras, é a capacidade de deixar palavras de fora. E é muito mais fácil inserir duas mil palavras distintas num texto do que escolher as outras milhares que vão ficar para a próxima. É nessas horas que se pode cometer uma injustiça e se perder o fio da meada.

Mas isso tudo é balela, já que é perda de tempo ficar me procurando. Da mesma forma que enxergo aqui meu reflexo, vocês, leitores, enxergam os seus. E não adianta que não há viva alma que me conheça suficientemente bem para me achar por aí. Não vale o esforço.

Esses texto e descoberta surgiram depois de eu ler um texto antigo desse blog: "André Miranda ou Jan Saudek", de 4 de agosto de 2003. Lembrei de como gosto das fotos de Saudek e fui dar uma olhada numas que tenho guardadas no meu HD. Só que eu me vi na foto abaixo. Não estou sentado, nem de quatro, muito menos de pé. Mas eu estou aí. E não percam seu tempo imaginando onde, porque a resposta pode ser cabeluda ou inocente e, em ambos os casos, vocês não vão querer compartilhar sua imaginação - por constrangimento de falta ou excesso de pudor. E eu odeio quem não compartilha pensamentos.

(continua...)

Sexta-feira, Agosto 26, 2005

Saudades do Grande Amor

Ele passava noites a olhar pela janela da lanchonete sem nada enxergar do lado de fora. O que fazia era apenas sentir saudades de seu grande amor. O irônico da coisa toda estava nessa saudade e nessa grandeza do amor que lhe embaciava a vista e suspendia a voz. Ele jamais havia visto, nem de passante, nem sem querer, nem a penumbra, desse amor tão grande que acabou sendo o maior deles. Jamais. Só teve desse grande amor algumas frases trocadas em códigos via guardanapos naquela mesa onde ele se sentava noite após noite, na espera.

O amor não é nada fácil, um dia lhe disse uma garçonete que já tinha se mandado, ou fora mandada embora. Ela gostava de fazer companhia ao silêncio dele, a maior declaração de amor que ela poderia ter conhecido em vida. Ela invejava os olhos direcionados sempre ao mesmo ponto, o sinal da esquina e seus pedestres e freadas bruscas. Ela nada dizia, era apenas respeito e admiração. Trazia um copo de café preto, amargo e um sanduíche de mortadela com tomates e orégano, sentava-se e comia lentamente, numa esperança míope de que ele pedisse um pedaço ou quem sabe desabasse em lágrimas para ela poder lhe sorrir. E então ela sorriria para ele e diria que nunca haveria homem feito ele, que ela era eternamente grata por aquele amor alheio, por fazê-la saber que seu sorriso não era em vão.

Mas ela se foi sem ter a chance, ou a coragem. O dono da lanchonete conhecia a história, acompanhou entre sorrisos e petiscos os dois amantes se desencontrando naquela mesa, a menina escrevia depressa, havia medo, havia a possibilidade do desconhecido, havia mesmo até felicidade naquela situação. E deixava o bilhete na mesa para ele chegar e ler e responder. Ele sempre espiava, não era possível que aquilo fosse sério, alguém tinha que estar ali para ver a sua reação, ela poderia ser qualquer uma mas sabia, sabe-se lá como, que ao observar o local, que ela não estava lá. Estivera, não estava mais. E respondia. Algumas garçonetes se emocionavam quando ele respondia.

Um dia ele veio e a mesa estava vazia. Sem bilhetes. Esse dia ele lembra bem, porque era quase manhã e uma menina atravessou o sinal correndo e não chegou do outro lado da calçada. Ele chegou a gritar que o sinal estava aberto pros carros mas ela passou por ele e terminou ali na rua, sozinha. Ele chamou por socorro e esperou perto dela, viu a morte chegar, ela fechar os olhos e as sirenes. Descreveu o atropelamento a três ou quatro guardas. E seguiu adiante, atravessou a rua, foi na direção da lanchontete. Não reparou na tristeza das pessoas que faziam o turno da madrugada, talvez por ser madrugada. Sentou-se e escreveu, amo você, amo demais você. Não houve resposta. Não haveria mais palavra alguma. Ficou aquele grande amor no peito dele e a rua, os atropelamentos, o silêncio.

Quinta-feira, Agosto 25, 2005

Uh! Huh! Her!

Eu gozo, tu gozas?.

Quarta-feira, Agosto 24, 2005

O amor de cada um (xvi)

Eu resolvi me matar com 20 e tantos anos para tentar provar que eu poderia mostrar tanto amor quanto ela achava que seu ex-marido havia mostrado. Não criei cenário, nem acendi velas. Simplesmente fechei portas, tampei frestas, abri o gás e escrevi uma carta de amor enquanto agonizava. Não durou muito e não tenho certeza se consegui me expressar bem.

Mais jovem de quatro irmãos, aprendi a conviver com as comparações cedo. Silvio era o preferido da mãe; Arthur, do pai; e Flávio, das mulheres. Pai e mãe ainda tentavam esconder suas escolhas e afinidades, mas era impossível. O pai, quando aborrecido comigo por pichar os muros dos vizinhos, dizia que eu deveria ter o comportamento de Arthur. A mãe não suportava minhas manhas e lembrava da seriedade de Silvio.

Em relação às mulheres, minha sorte só foi melhor do que a de Arthur, que tinha o nariz grande e uma mancha no lado esquerdo do rosto. Eu estava acostumado com sua aparência, mas passado o tempo, admito que aquele irmão era horrendo.

Michele, a garota mais bonita da escola, a quem eu convidei para tomar um sorvete num sábado à tarde, respondeu impiedosa "você é tão fofinho, mas deveria pedir uns conselhos para o seu irmão Flávio". Anos mais tarde, descobri que Flávio havia sido o responsável pela iniciação sexual de Michele.

Cresci, então, assim, buscando o comportamento de Arthur, a seriedade de Silvio e o charme de Flávio.

As comparações de infância não se tornaram exatamente um trauma na vida adulta, mas construíram um sujeito competitivo com uma necessidade ímpar de auto-afirmação. Foi assim na escola e no trabalho.

E foi assim também com as mulheres e suas dúzias de histórias de ex-namorados, viagens, casos e noites intermináveis de cópulas. Eu precisava me inserir em suas lembranças, quaisquer que fossem, qualquer que fosse a maneira.

O suicídio do ex-marido de minha última namorada, então, provocou o pior dos sentimentos e me agonizou por meses em busca de um ato que superaria aquela fictícia prova de amor. Porque ela me lembrava sempre como aquele suicídio havia sido a maior prova de amor que alguém já havia lhe dado, e jamais lhe daria novamente. "E ele fez isso por mim", repetia, soltando uma ou duas lágrimas.

O suicídio é um ato covarde na sua essência, é a forma mais simples de fugir dos problemas. No caso do ex-marido, esta havia sido a explicação. Ele não agüentava a perda e preferiu se matar a insistir numa reconquista ou numa recuperação. Aborrecia-me, portanto, toda a ladainha de que seu suicídio havia sido movido por amor. Não foi.

E a única forma de provar a ela seu erro era mostrando a única forma de suicídio movida por amor. Confesso que antes de tudo, antes dos meses sofrendo em busca de um ato que pudesse superar aquele suicídio, não concebia, tampouco acreditava, que existia alguma forma de suicídio que não fosse movida apenas por covardia. Minha morte provavelmente foi o único suicídio em toda a história da humanidade motivado por um amor de qualquer natureza, não apenas pelo amor de um homem a uma mulher. Os minutos inalando o gás foram suficientes para me convencer.

Na carta, escrevi apenas "para provar que eu te amo mais do que qualquer um poderia amar". Espero que tenham sidos suficientes, essas palavras, para convencê-la.

Terça-feira, Agosto 23, 2005

Mudanças

Mudei a porra toda. Espero que gostem. Ainda há ajustes a fazer, lógico.

Belém, meu bem, Belém - I

Luana, estava sentindo falta dela. Luana, me olhou nos olhos e disse que tinha visto a camisinha, e eram duas, no lixo do banheiro. "Você poderia ao menos não me deixar descobrir, né?" Eu sabia, só não sabia que ela iria se importar, não sabia que ela tinha passado a se importar comigo, com quem eu andava, o que eu fazia, com quem trepava. Eu quis sorrir porque é o que se faz quando alguém confessa esse tipo de coisa, que gosta de você a ponto de se preocupar e sentir ciúmes, mas não era o momento. Olhei sério, falar o quê? Aconteceu, não vai acontecer mais, Lu. Ela não acreditou. Nem sei se eu mesmo havia acreditado.

Então, peguei o celular e liguei pro número dela. Seria inútil, ela estava com a família de veraneio em Algodoal, uma das cidades pra onde os belenenses fogem no verão, em busca de sol e água fresca e areia. O celular dela não pegava por lá, mas eu ligava de qualquer modo, um dia, por descuido ou poesia, a ligação completava e ela atenderia e me chamaria de fofo e perguntaria se estava tudo bem e eu ouviria a voz dela. Pouco? Era tudo o que eu precisava àquela hora do dia, o dia nascente invadindo pela janela. A operadora de telefonia não alterou a mensagem eletrônica gravada após os números discados, aquela ligação não estava disponetc. E pensar que tem gente que chora quando aquele robozinho de Inteligência Artificial desliga, finalmente, pra encerrar o filme.

Primeiro tocou o despertador, a voz do locutor da rádio anunciando mais um sucesso do Calypso. Era cedo demais pra mim e desliguei para voltar a dormir mais um pouco, eram apenas sete e quinze da manhã, era quarta-feira, fazia um sol de rachar, como havia de ser sempre, especialmente no verão. Belém está mais perto do sol que São Paulo ou Belo Horizonte ou Curitiba. Sente-se na pele. Sair às ruas após oito da manhã requer coragem e melanina. Aí veio um barulhão, era o timer da TV, um esporro, o aparelho tinha vinte polegadas e som estéreo, meus vizinhos certamente deviam me odiar a cada manhã. Sete e meia. Acordar, desenganar o estômago com leite e nescau gelado, aditivar com um teco de vodka pra se sentir malandrão, lavar a louça da janta da noite anterior, lembrar que a menina que lava e passa e costura virá para pegar uma camisa cujo bolso se estropiou. Rotina. A vida dum farrapo que não acerta na megasena. Banho, roupas, contas a pagar, rayban no rosto que a gente sabe ter estilo, escadas, bom dias, a vizinha ninfeta me sorri no ponto, ela sabe sorrir, ela sabe que escrevi um bilhete após algumas cervejas e passei por baixo da porta dela, ela sabe que é linda, ela sabe que eu faria alguma merda muito grande por um sorriso daqueles, ela sabe que caminho iluminado em direção a ela, beijo na bochecha e na outra e você também está saindo pro trabalho, pois é, meu ônibus já vem, então deixa eu atravessar que meu ponto é do outro lado e mais um par de beijos. Fico vendo o coletivo dela partir e ela paga a passagem, passa na roleta e uma curva e se foi.

Luana está longe, a vizinha se foi, Rosa está ocupada com minha camisa, Rosa gosta de mim, torce para eu roubar um beijo, escrever um poema, enfiar a mão por baixo da saia e descobrir sua calcinha e atrasar seu serviço. Rosa, Rosa, Rosa. Eu apenas cumprimento, pergunto se está tudo bem, reparo que cortou o cabelo, cobiço a barriguinha descoberta. Rosa seria uma boa forma de passar manhãs mas agora tinha Luana, ela merecia um cara menos calhorda, eu iria tentar.

O sol já a pino e peguei meu ônibus para o trabalho. Madonna canta feito uma virgem pelos alto-falantes, minha camisa já está molhada de suor na gola. Belém, meu bem, Belém.

Sábado, Agosto 13, 2005

O Lobo da Estepe

O Lobo da Estepe morava num quarto e sala fajuto no meio da cidade, mas isso não é problema seu. Ele apenas bebia mais uma cerveja na vida e coçava a pança, ou o pé, ou os bagos e pensava na próxima cerveja. Ou na próxima mulher. Pensava pouco, era mais um homem que buscava atos a pensamentos. Achava tolo pensar e a maioria das grandes cagadas e decisões acabavam sendo frutos do impulso mesmo.

A cerveja descia morna e alguém ligou. Olhou o relógio, três da manhã. Más notícias nunca podem esperar boas horas. Resmungou e nem era velho o bastante para tal. Atendeu. Alooou? Voz de mulher, forte sotaque, suspeitas de consumo alcoólico. O Lobo sorriu, sorriu porque adivinhou A Garota do outro lado da linha. Ela não era qualquer garota, era A Garota, ela lhe ligava para dizer que gostaria de ficar doida com ele e lhe morder o pau e as bolas e arrancar um pedaço de seus mamilos. Louca, mas ele gostava.

O Lobo da Estepe tinha dessas coisas na vida, mulheres loucas. Elas descobriam como chegar até a ele e vociferar suas loucuras, quando não o atacavam e destroçavam aos poucos aquele resto de fé na humanidade que ele insistia em conservar. Elas eram monstros, mas sabiam disfarçar isso todo o tempo, de forma que ele se via sempre tentado a ceder às tentações. Ademais, ele gostava, sorria, correspondia e até incentivava.

Ela, por sua vez, gostava também. Era dessas gurias que se acham semibêbadas e seminuas pelas ruas de Porto Alegre a alegremente procurar o acaso. "Me comas", dizia em sussuro inaudível. E repetia até o amanhecer. Putana sem rumo, piázinha ainda, deixava crescer os pelos pubianos numa classe sem classe e sem compostura e se julgava muito senhora disso tudo. Era virgem, mas não contaria essa verdade incriminatória jamais ao Lobo, temia o clique fatal na linha e o eterno silêncio daquelas noites.

Ela gostava da respiração e das perguntas do Lobo, que ela imaginava um senhor de 67 anos, escaras nas costas, lembranças apagadas, marcas de tiros e faca pelo peito. O Lobo apenas escrevia crônicas em jornais que ela consumia como se elas, as crônicas, algum valor tivesse além do preço de tinta e papel gastos nelas. A Garota morreria por aquelas palavras, pelo homem daquelas palavras, pelas histórias e mentiras daquele homem. Queria dizer a ele que amava e não queria mais desamar e que sonhava todos os dias em encontrá-lo ao pé de sua cama, velho, senil, as mãos cansadas de espancar teclados e macacos.

O Lobo já havia pensado em desistir de tudo tempos atrás, quando escrever era fácil e até gostoso. Aproveitava essas garotas lhe querendo sempre que dava e depois deixava o quarto antes do sol, silencioso, usado. Aí as palavras resolveram complicar as coisas, ele passou a estranhá-las e estranhar aquelas cartas, as ligações, as rimas pobres. Então A Garota o achou, numa tarde de quinta, num inverno, num bilhete manuscrito passado por baixo da porta de seu quarto e sala. Havia um número de telefone e mais sete letras enfileiradas a serem lidas "me comas". Isso já tinha um ano.

O Lobo da Estepe não tinha 67 anos, mas 42. Tinha escaras nas costas, mas nenhuma bala no corpo. Havia tatuado um amor falido no antebraço esquerdo e perdido um dente por conta do Sport Club Internacional de Porto Alegre. Havia publicado alguma literatura também, de onde apareceram as loucas e seu emprego nos jornais. Diante dA Garota e seus sussuros, tudo aquilo virava pó e desejo. Ela descrevia com requintes de crueldade como havia sodomizado motoristas de ônibus, coleguinhas de sala de aula, moscas de bar e pedófilos arrependidos fantasiando com seu glorioso pau, sua metafórica língua. Ela ofegava e chorava, um desespero. Mas nunca, jamais, lhe dizia quem era, onde estava. Desligava quando as palavras faltavam e pronto, não atendia mais ao telefone. Aquilo era um jogo e ela queria vencer.

O Lobo, derrotado, em lágrimas aliviava o desejo daquela fala sozinho e sujava o chão da sala e voltava ao teclado. As palavras, ou as palavras Dela, o guiavam sem rodeios rumo a algo que pudesse fazê-lo ter em suas mãos A Garota. A cada dia se mostrava uma luta mais perdida, mas ele esquivava, salteava e chamava seus monstros pro pau. De nada adianta apanhar da vida sem poder revidar os sopapos.

As próximas horas seriam muito boas para ela também.

Quinta-feira, Agosto 11, 2005

Rebel Yell

Atrasado pro trabalho. Indo bater ponto de All-Star, camiseta Hering e Rayban. Atrasado porque o CD do Queens Of The Stone Age ainda não não acabou e Sonhos de Bunker Hill parece ser um grande livro.

Oh, behave, baby!

Terça-feira, Agosto 09, 2005

Toda Forma De Amor
Cena 5

Segurei na mão dela e saímos correndo pelo jardim, correndo mesmo, feito dois loucos. Aí paramos, cansados, ofegantes. Mas ela sorria. Tremia toda numa convulsão de felicidade e começou a tirar toda a roupa, blusa, meias, a calça, a calcinha o sutiã e ficou parada com aquele sorriso nu me encarando. Fiquei sem jeito, porque ela já tinha feito aquilo antes de tirar toda a roupa na minha frente, mas nós tínhamos 5 anos época, foi há vinte anos atrás. Eu era jovem e magro.

Ela voltou a correr mas soltou da minha mão e correu aos gritos, como se nada mais precisasse fazer sentido e só o seu corpo bastasse para a vida, correu e parou novamente. Eu fiquei olhando. Sentei no gramado, estava noite e era legal a grama de noite, era diferente dela de dia. Claro, era a mesma grama, o céu é que tinha mudado. Ela perguntou se eu ia parar. Tinha um sorriso branco em seus dentes amarelados. Vem comigo, vamos, é legal.

Levantei e comecei a desamarrar os cadarços, devagar, tímido, com vergonha da barriga que veio com os últimos anos. Ela percebeu e me jogou de volta na grama, arrancando o par de tênis e os varando noite afora. Aí, meias, o cinto, calça, a ceroula e fiquei só com uma camiseta igual à do Charlie Brown. Ela achou graça, apontou pra mim e voltou a correr naquela nada forrado de grama e ceracdo de estrelas. Nenhuma mulher poderia ser tão cheia de graça.

Corri atrás dela e comecei a gritar, feito ela, e tirei minha camiseta e estava livre, a barriga livre, os pés no chão, a garganta no mundo. Era engraçado, a gente parava sem fôlego para rir um na cara do outro e começava tudo de novo. Aí amanheceu o dia, a gente já tinha deitado por ali e caído no sono. Ela acordou primeiro, eu depois. Vesti as roupas e voltei pra casa. Nunca mais ela tirou a roupa na minha frente, nem quando transamos no banheiro do quarto dos pais dela na festa de seu casamento com meu primo.

Domingo, Agosto 07, 2005

O amor de cada um (xv)

Eu tinha acabado de sair de um bar na Rua do Matoso, próximo à Praça da Bandeira, onde tomei dois Dudus. Era uma mistura de quinado com conhaque Dubar, inventando pelo dono do boteco, um paraíba chamado Eduardo. Ruim, mas tragável. Fazia frio e a bebida naquela dia foi menos vício do que necessidade. A cidade estava vazia às 2h e andei até a Rua Ceará, a fim de procurar vida e calor. Mas nem as prostitutas pareciam interessantes. Eram de qualidade duvidosa.

Caminhei, então, em direção à Rodoviária Novo Rio, pela Leopoldina, para tentar encontrar algum viajante à espera de um ônibus. Seria uma boa companhia, pensei. Não era momento ainda de retornar para casa e encontrar com ela, depois de ter sido chamado pelas piores alcunhas jamais me atribuídas. Ela tinha raiva, eu tinha raiva, e não seria uma conversa numa madrugada fria que resolveria. Acabaríamos brigando mais ou, pior, trepando feito cachorros na rua, por instinto e odor.

Seu sexo não saía de minha imaginação, mesmo em momentos de raiva, mas não gostaria de fazer disso a solução de nossos problemas. Seu sexo ainda sacudia meu paladar depois de uma manhã tranqüila e prazerosa. À tarde, porém, tudo desandou, nós desandamos e saí de casa para ver mais uma derrota do Vasco no Maracanã. Assim fui parar na Praça da Bandeira e ignoro qual solução ela encontrou para curar a dor, se é que ela estivesse sentindo alguma. Só não queria que a solução mais uma vez fosse nosso sexo, por mais interessante que isso pudesse aparentar.

Na última vez que resolvemos uma de nossas brigas com sexo, há menos de duas semanas do dia em que traí minha mulher pela primeira vez, chorei sozinho no banheiro, abafando o som com uma toalha de rosto entre meus dentes. Havíamos trepado com raiva, mordendo, batendo e puxando os cabelos um do outro. E foi bom, muito bom, melhor do que as transas apaixonadas do início de nossa relação. E eu sofri por ter sido bom amá-la pela raiva. Quando voltei para o quarto, ela dormia um sono honesto e não parecia ter se importado com aquela forma de amor. Sofri ainda mais por sua indiferença.

Minha raiva naquele domingo não seria resolvida com Dudus e putas, mas alguma coisa precisava ser feita antes de voltar para casa, justamente para evitar um ato sexual como aquele, de duas semanas antes. Foi nesse contexto que conheci Camila num banco do segundo andar da rodoviária. E foi essa história, com os mesmos poucos mas importantes detalhes, que contei para ela.

Camila ouviu meu relato com aparente atenção e apenas perguntou se eu não queria tentar o sexo com ela. Parecia absurdo demais trair minha mulher com uma paraense conhecida na Rodoviária Novo Rio numa noite fria do cidade. Mas naquela noite eu precisava de Camila, até para descobrir se o sexo poderia existir com outra pessoa e se a TV poderia estar desligada. Porque minha mulher apenas topava transar com a TV ligada, qualquer que fosse a ocasião. Não tinha tara por filmes pornográficos, mas gostava de prestar atenção em novelas, séries e filmes de suspense enquanto transava. Ela me jurou que isso aconteceu em todos os seus namoros anteriores, mas eu não gostava de falar no assunto, além de temer que meu sexo pudesse ser enfadonho a ponto de ser necessário uma TV ligada. Father Oblivion não conseguiria tanto.

No hotel ao lado da rodoviária senti falta da TV num primeiro instante, antes de tocar no seios de Camila. Pensei nas etapas que era obrigado a cumprir com minha mulher e fui fazendo a mesma seqüência, por prática e instinto. Mas a TV fez falta e me toquei que seria um equívoco trepar daquela forma. Parei e chorei pela dor da minha traição e por me ver tão fraco em não conseguir manter uma relação com outra pessoa. Camila também chorou - por piedade, acredito. Enxugou minhas lágrimas, me disse que me faria feliz novamente e segurou meu pau com força e delicadeza.

. O sexo pecaminoso com a paraense não foi bom. Talvez os quinados, a longa caminhada ou a aflição pelo erro cometido tenham surtido algum efeito. Mas tive a revelação naquela madrugada que eu poderia, ainda que por força das circunstâncias, encontrar alguma felicidade fora de casa. Eu precisava ter essa certeza, antes de prosseguir minha vida conjugal.

Só voltei para ela no dia seguinte, incerto sobre o futuro. Ela me esperava chorando e não perguntou onde eu havia passado a noite. Mas eu contei, contei tudo. E perguntei tudo também, até mesmo sobre o motivo que a fazia deixar a televisão ligada enquanto transávamos. Exigi saber tudo. Ela chorou mais mas, surpreendida com tanto interesse, respondeu a todas as minhas perguntas. Sofri mais com as respostas do que ela com a traição e, tenho certeza, isso ficou claro. Nos sentimos vingados um do outro e decidimos continuar juntos. Não sei se foi uma boa decisão.

Quarta-feira, Julho 27, 2005

Morcego Negro - Infinito

Não é que eu te quero mal. É que não te quero mais, então deixe estar. E vi que ela baixou os olhos diante de mim, após tanto tempo e tantos desencontros. Não éramos dois estranhos porque nossos corpos se conheciam e talvez ainda se precisassem, mas não era o corpo ali, era o homem e o homem estava exausto do desejo que aquela mulher lhe inspirava.

Ela sorriu como nenhuma lágrima seria capaz.

Minhas mãos se impacientaram, queria poder tocar seu rosto, ou tirar a mecha de cabelo da frente de sua vista esquerda, ou segurar sua mão. Enfiei ambas as mãos no bolso da calça e desviei um pouco o olhar, a lembrança de Nina aparecia e eu tentava não lembrar. Jamais poderia amar e cobiçar nada como havia feito com ela, e essa seria minha vida dali por diante: uma vida passada, uma vida terminal.

Nina pediu desculpas por tudo, por ter sumido, por ter chorado longe de mim.

Eu disse que estava tudo bem. Como se aqueles últimos tempos fossem apenas um mau dia ou um sonho ruim, como se eu não tivesse deixado a cidade numa busca inconcebível por nós, como se aquele encontro numa cidade estranha fosse cotidiano. E, sem razão aparente, disse que ela parecia mais bonita após tanto tempo.

Ela me chamou de bobo, disse que eu devia deixar a barba e que eu ficava engraçado de terno, nessa ordem.

Nos olhamos feito futuros amantes. Nos calamos feito primos que se amam clandestinos. Respiramos feito noivos diante da cama na lua-de-mel. E cada um seguiu para um lado do sol, para outro dia, para outros dias. Ela não olhou para trás, eu é quem havia me transformado numa estátua de sal. Ela havia se transformado na mulher mais linda do planeta.

E sabendo que só me restava a morte dali para frente, o jeito foi seguir vivendo.

Morcego Negro - Nada

Tempo, no fim tudo é o que restar dele. E o que resta do tempo é o próprio tempo estampado em você, nas coisas, nas palavras, feito cicatrizes que nunca se fecham mas um belo dia se percebe que elas simplesmente não incomodam mais. Restou apenas o tempo, o seu tempo, rumo a outros tempos. E aqueles eram outros tempos, onde Nina seria apenas um nome como Bia, Maria, Leila.

Pouco mais de três meses de trabalho e adaptação a uma nova cidade tiraram da minha garganta a sede de Nina. Alguns momentos uma lembrança aparecia mais forte e eu, não o tempo, congelava. Sorvia a memória sem pressa, como se fosse um legítimo cálice sagrado e exigisse silêncio, respeito. Eram pequenas aquelas lembranças sobreviventes. A cor dos sapatos preferidos. Um dia gasto numa procura por uma meia-arrastão rosa choque. O gosto do batom que ficava no copo. A primeira vez que ela adormeceu no meu colo segurando minha mão.

Eu anotava num caderno aquelas lembranças que não se foram misturadas à raiva ou a barbitúricos. Eu não sentia mais raiva ou pena, acontece que eu também não sentia mais nada. Sem Nina, não havia porque perder tempo com sentimentos - seria hipocrisia, o que eu sabia sentir era dela que vinha. Eu não estava mais amargo, agora eu era um homem neutro feito água. Bia chorou ao ver em meus olhos que eu não ligaria no dia seguinte. Maria me esbofeteou o rosto quando eu preferi terminar a pizza e só depois dirigí-la até o ponto do ônibus. Leila não sabia que eu só fumava perto dela porque eu sabia que ela detestava a fumaça.

A agência não parava de me oferecer um outro cargo melhor na sede, porque minhas contas e clientes geravam lucros de sonho. Diziam que eu poderia escolher entre Rio e São Paulo, que triplicariam meu salário, que pagariam minhas despesas com aluguel. Eu aceitei. Era um publicitário e vivia de conquistas. Fabricava ambições.

O detalhe é que eu não acreditava mais em ambição alguma, não havia mais nada a ser cobiçado. Só havia o tempo, eu agora precisava do tempo, não sabia extamente para quê. Tirei uns dias de folga para ajeitar a mudança de volta, não havia de ser nada.

Quinta-feira, Julho 21, 2005

Drama pessoal

Eu não gosto de Los Hermanos. Desde a enjoativa Ana Júlia, olhos torto pras coisa que Camelo e Amarante produzem. Eu, aliás, tenho birra com o Amarante. Sabe quando você não vai com a cara do fulano? Pois é. Não gosto deles, não tenho disco, não baixo mp3, não vou a shows, não choro com Primavera. Coisas da vida, escreveria Kurt Vonnegut.

Dei minha cara a tapa quando saiu o Bloco do Eu Sozinho. Era uma banda diferente, era algo mais real do que um radio hit. Tocaram perto de casa, resolvi ir lá ver, junto de milhares de pessoas que se espremeram no Cine Íris pra ouvir Marcelo Camelo e suas marchinhas roqueiras. Decepção. A grande sensação do rock nacional não passava duma bandinha mixiruca que só, guitarrinhas tímidas, uma vontade de ser Chico Buarque com coração do Roberto Carlos. Deu sono.

Meus amigos queriam emprestar o disco, me levar a shows, etc. Eu nada. Eles estouraram, o disco foi dito uma obra prima, Camelo virou referência na MPB e no rock, a barba que eu costumo usar me levava a ser indagado se eu gostava de Hermanos. E saiu o Ventura. Cara Estranho que passava na MTV era legal, confesso, O Vencedor grudava no seu ouvido, no meu também. Mas peguei o disco emprestado com meus primos e não consegui, em três tentativas, chegar na metade. A coisa simplesmente não fluía. Desisti, Los Hermanos não era pra mim.

Eu também não gosto de Smiths e abomino tudo que se pareça levemente com Joy Division. Capital Inicial sempre me pareceu algo medíocre, como a gigantesca maioria desses roqueiros oitentistas que viraram público alvo de gravação de acústico. Não sinto o feeling neles, parece algo pré-fabricado pra chegar num resultado certo, num ouvido específico, e eu sou surdo. Mas os Hermanos, eu às vezes me condeno por não gostar. Sinto culpa por ver tanta gente boa curtindo e eu querendo que a música termine logo.

Hoje li nalgum lugar que eles vão lançar disco novo daqui a uns dias. Bloquearam tudo pra não vazar na internet, como se aquele povo fanático fosse impedido por isso. Nenhum artista alcança tamanho grau de empatia com seu público apenas fazendo propaganda de refrigerante, é preciso haver talento. Eles têm. Dá pra sentir, ainda que não se goste, que eles são honestos em sua música, que aquilo ali é trabalho braçal e sentimento, é rock mesmo. A grande maioria não chega onde eles chegam. Fui ouvir a música nova no site deles, mas não adianta, ainda não foi dessa vez. Desculpem vocês, mas eu continuo achando Los Hermanos sacal.

Quando a prosa tarda, a gente se engana com poesia.

Icleide sorri (Leandro Godinho)

Icleide sorri
quando oferece o seu amor
e se tatua em mim
pela noite
e me deixa passear através
de seus dedos
na rosa do púbis
na ponta dos cachos
na curva dos olhos,
são lábios que mordem
são beijos que fogem
são crenças que falham,
o mundo lá fora apenas
desaba
e dentro de mim
alegria, alegria,
Icleide sorri.

Belém, julho de 2005.

Quarta-feira, Julho 20, 2005

Ao Leo

Leandro, você é meu amigo e bem sabe que tenho duas péssimas famas complementares: minto demais e me atraso demais. Certa vez, deixei o Leo, nosso amigo careca que se mudou para o Sul, mais de duas horas esperando na Avenida Presidente Vargas. O coitado só queria uma carona e eu o fiz esperar. Quando ele me ligava, eu dizia sempre "estou chegando, Leo, estou chegando". Eu era um escroto.

Uma vez, muito tempo depois, eu pedi desculpas. Estava querendo me redimir por meus erros com todo mundo e saí ligando para os amigos com quem já tinha vacilado para pedir desculpas. Fiz até uma lista. Atualmente, não minto e me atraso como antigamente, mas ainda tenho meus vacilos. Qualquer dia, faço outra lista e ligo novamente para um pessoal. É só deixar acumular um pouco mais para valer a pena o exame de consciência. Não vai demorar muito, garanto.

O importante, Leandro, é que hoje é aniversário do Leo. E eu estou com saudade dele. Vou ligar para perguntar se ele conseguiu me perdoar quando atrasei daquela vez. Sempre acho que as pessoas não conseguem me perdoar por meus erros e espero que o Leo, pelo menos ele, tenha conseguido.

Sexta-feira, Julho 15, 2005

Completo fracasso

Durante muito tempo, imaginei que poderia vencer na vida. Ou então simplesmente ser conhecido como um cara bacana. Riqueza ou simpatia: nada mais seria preciso. Acontece que a vida não é tão simples quanto poderia ser e toda a esperança acerca de possuir alguma virtude - material ou afetiva - desceram pelo ralo. Está tudo acabado.

Alguém por acaso já ouviu falar de um sujeito chamado André Miranda? Estudei com um cara que defendia a tese do sucesso aos 30 anos. Segundo ele, uma pessoa que não fosse extremamente bem sucedida profissionalmente até os 30, deveria buscar outro rumo. Não tenho 30, mas me vejo mais perto da idade fatal do que do sucesso. Vale a pena esperar mais quatro anos até perceber que estou numa furada? Das grandes, gente.

O problema é que não tenho tesão em mudar pela terceira vez de carreira e preciso ganhar alguma grana para pagar dívidas. Nem gasto muito, mas, certa vez, contabilizando os comprovantes de cartão de crédito, vi que mais da metade foi gerado em bares. Ou seja, até terminar meu best seller, ou paro de beber ou me contento com o jornalismo. A primeira opção está fora de cogitação, vocês sabem.

Existe uma série de vídeos infantis com "baby" na frente e o nome de uma figura famosa logo em seguida. Baby Mozart, Baby Shakespeare, Baby Einstein etc. Soaria bem, mas nunca vai existir um Baby Miranda, infelizmente. Isso é dogma.

O outro sonho, o de ser um cara bacana, esse já foi abandonado. Quando metade da faculdade de comunicação passou a me odiar por ter chamado umas meninas do Centro Acadêmico de "piranhas", vi que não existia um André simpático. Sou mal-humorado mesmo e ponto, não dá para enganar. E, vejam bem, naquela ocasião do xingamento, meu objetivo não era ser agressivo, acreditem.

Essa coisa de ser bacana me faz pensar em meus relacionamentos. Sempre quis saber qual personagem eu seria para Teresinha, a da música do Chico. O primeiro que veio do florista, o segundo que veio do bar ou o terceiro que veio do nada? Identifico-me com os três em momentos distintos. Às vezes trago bichos de pelúcia, às vezes litros de aguardente, às vezes não trago nada, mas deito na cama e as chamo de mulher.

Na música, Teresinha dispensa os bom e mau caráter e fica com aquele que simplesmente é bom de cama. É o que as mulheres querem mesmo. Mal sucedido e mal visto, eu poderia ao menos ser bem dotado. Mas nem isso, gente. Sou um fracasso. Um completo fracasso.

Sábado, Julho 09, 2005

Caro Leandro,

Virei um paranóico, assustado com tudo, imaginando tudo. Razão, amigo, é coisa que não tenho há um tempo. Mas isso vai passar em breve, espero. Lembra a vez em que ficamos cantando Man on the Moon por estradas escuras de Saquarema? Traduzindo do inglês, está na hora de um "iéiéiéié" para acalmar os ânimos e garantir o futuro.

Com post tão esquisito, fique tranquilo, afinal você estará entre nós em breve. E vamos botar o papo em dia, amigo. E vamos beber Cerpas para discutir se ele pisou na Lua. E vamos beber Bohemias para descobrir que ele pisou.

Adianto uma coisinha, porém: eu ando fisicamente cansado, velho. E, por isso, I am losing touch.

Quarta-feira, Julho 06, 2005

Espíritos Porcos!

- Você não pode fazer isso comigo! Eu te amo, porra!
- E eu te perguntei alguma coisa?

- Você acredita que ela me traiu com o Nestor enquanto eu estava no mestrado em Ohio?
- Impossível! Nessa época eu enrabava o Nestor toda sexta!

Ana só queria encontrar um grande amor. Encontrou Lineu, que lhe prometeu o céu, o mar, o barulho das folhas. Depois apareceu Eduardo, que não precisava prometer nada porque fazia Ana gozar cinco, seis vezes a cada encontro. Lineu até hoje liga de madrugada, pedindo de volta pelo menos o barulho das folhas. Ana quase não atende, ocupada em gozar a vida.

Terça-feira, Junho 28, 2005

Delírios pornográficos juvenis

(os primeiros destes delírios estão em 11 de novembro de 2004)

Minha maior diversão naquele tempo pedia apenas criatividade. E criatividade sempre foi meu forte, gente. Então, para criar apelidos simpáticos e bobos, como The Strong, Carioca Sarado, Bono Vox ou Andy 25cm, não era preciso pensar muito. Pseudônimo escolhido, passava horas na internet inventando personagens e dogmas. Algumas coisas não mudaram, vocês sabem.

Acontece que às vezes, na maioria delas, eu apenas me identificava como Andy. Era simples e, acreditava, poderia significar homens ou mulheres. Depois aprendi que o radical de meu nome é originariamente masculino e era dado a mulheres noutros tempos como forma de mostrar força num mundo machista. Hoje, teoricamente findo o machismo, usar as variações Andrea, Andreia, Andrezina ou Andressa para batizar as filhas não faz muito sentido.

E foi numa dessas noites solitárias com um Andy virtual assumindo o controle que conheci Lorena, utilizando um simples "oi, estou desesperado" como artifício. Fui eu que me aproximei. Quis ser dramático e instigar curiosidades ao mesmo tempo. E desespero, sempre achei, era um sentimento forte que poderia tocar até mesmo os mais sacanas do mundo virtual. Como eu era, admito.

"Calma, não se desespere. Lorena está aqui para te ajudar". Isca mordida, pensei, lá fui eu com minha história fantástica. Andy era um órfão, criado por uma família bondosa e rica, que o adotara num orfanato de um bairro de João Pessoa. Seus pais adotivos eram advogados que não podiam ter filhos e que estavam de férias no Nordeste. Quase bateram de carro na capital da Paraíba, atribuíram a salvação a Deus e resolveram retribuir.

Eram tão bons, os pais de Andy, que nunca haviam escondido a verdade do filho adotivo. No Rio, ele teve estudo, amigos, amor familiar e estava na faculdade de medicina, conversando com Lorena por um chat de internet quando escreveu "oi, estou desesperado".

O personagem era mais complexo, mas não me lembro de detalhes. "Por favor, menino Andy, diga-me a origem de seu desespero". Na escolha das palavras, Lorena era dócil e simples, quase encantadora. Adorei o "menino Andy". Lamentei, porém e por um instante, estar gozando com alguém real, que poderia, naquele chat e naquele momento, querer conversar como pessoa civilizada e não como idiota (meu papel).

"Meus pais verdadeiros me acharam e querem me conhecer", disse. Esse era o desespero, não tão criativo quanto vocês e Lorena poderiam esperar. Mas era desesperador mesmo assim. Lorena, por sua vez, não teve dúvidas e respondeu rápido, numa só teclada "eu adoro órfãos, menino Andy, e sei como te confortar". Um minuto depois - longo minuto, confesso; a cretina conseguira passar a curiosidade para mim - chegou um arquivo de som no meu computador, via chat. Aceitei o download e ouvi numa voz ruidosa e rouca "Andy, me chupa". Poderia ser voz de homem ou de mulher, não consegui identificar.

Fiquei vermelho e excitado, acho. Certeza mesmo tenho que fiquei nervoso, com meu sangue católico fervendo mais do que deveria, Identifiquei o demônio naquela gravação. Eu ainda era um adolescente católico e via demônios em muitas coisas, vocês sabem. Cortei a conexão e nem me despedi de Lorena. Depois daquele dia, os pseudônimos Andy e seus derivados foram aposentados. Pelo menos enquanto fui católico.

Conto essa história agora porque achei o arquivo perdido por aqui, junto a dúzias de fotos de sacanagem e poesias sofríveis, guardado num backup velho que jurava nem ter mais. Transferi para meu computador e, depois, para meu Ipod. E lembrei com um certo carinho de Lorena, um provável velho tarado sem nada para fazer.

Não sou louco e nem tenho tesão em sexo virtual. Mas, saudosista, coloquei a voz de Lorena em todas as minhas playlists - carinhosamente chamadas de Jeca Rock, Jeca Jazz, Jeca Latino etc. Daqui para a frente, para lembrar do passado, vou ouvir, por aí, "Andy, me chupa" no Ipod. Na praia, no trabalho e no carro, Lorena e seu carinho por órfãos vai me acompanhar. Se ela existiu fora do computador, tenho certeza que adoraria a homenagem. É uma coisa como ouvir Sampa no walkman, lembram?

Segunda-feira, Junho 27, 2005

Estávamos eu, meus derradeiros Marlboros e a cerveja que ainda restava naquela mesa na companhia de dois amigos, um casal e sua filhota, então eram três os amigos. Uma banda animava o clube, era uma festa de São João, havia quadrilha, havia as meninas desfilando de misses caipiras, havia um senhor falando besteiras de improviso ao microfone mas não havia estrelas no céu, tampouco nuvens, apenas uma noite. E havia aquela loira, imensa, farta, provavelmente uma bela diversão sobre uma cama, ou no banco traseiro de um carro ou até mesmo o banheiro do clube, ofegantes e silenciosos entre mármore sujo, uma loira que não envergonhava a cidade de Belém.

Pois bem, a Loira também estava numa mesa com amigos e tinha aquele cara, ela sempre dava um jeito de abraçá-lo, dizer cochichos ao pé do ouvido, marcar território. A mesa deles era a frente da nossa, umas 3 ou 4 mesas de distância, já vagas, daí eu tinha uma visão clara da situação, ela sentava-se de perfil para mim perto daquele cara. Mas era apenas uma loira a Loira, todos nós encontramos montes de loiras diariamente, quero dizer, não sei se é o caso de você estar me lendo nos confins asiáticos ou na grande mãe África, mas também não me interessa saber. Ela estava lá sendo loira, eu estava na minha mesa sendo um cara que bebia e sorria e falava coisas para a conversa não morrer junto do samba.

Numa das inúmeras vezes que fui ao banheiro eu resolvi acender um cigarro na volta, o casal e a filhota mereciam um pouco de tempo entre eles, sem mim na mesa, aquele tempo necessário para um trago. Parei para acender e dei com meus olhos nos olhos da Loira e ela parou com seus olhos no meu e, talvez não tenha durado nem dois segundos, mas Eistein era um gênio porque qualquer um poderia perceber nossos olhares se desafiando por horas e horas. Nenhum de nós sorriu como nos filmes, era uma surpresa, ela se desvencilhou e, ainda sob meu olhar, seguiu para uma ida emergencial a um banheiro próximo com uma das amigas da mesa. Eu retornei ao meu posto. Ah, mulher infiel!

Ela voltou do banheiro com alguma discrição, mas fez questão de abraçar aquele cara, beijos no rosto, o serviço completo. Talvez ele fosse o namorado, ou possível namorado, quem sabe um primo que anos antes havia mostrado a ela o lado positivo de se beijar um homem na boca e sabe-se lá mais o quê. Mas ela olhava para mim logo depois, os olhos fixos, talvez me desafiando a derrubar aquele cara da cadeira, tomá-la nos braços, jogá-la na primeira cama possível e comê-la literalmente, comer aquela loira com arrogância e gozar na cara dela. Seria uma boa forma de terminar a noite.

A vida, e quem já viu os filmes do Jerry Lewis há de concordar comigo, a vida é uma coisa muito engraçada e que não faz sentido algum. Não é bom que faça. Quando começa a fazer, é porque você está perto de concluir a sua vida, você irá morrer e começa a entender tudo mas aí você morre, e não há muita graça em entender a vida e não poder contar pra ninguém. O grande barato é continuar vivo, mesmo sem entender lhufas. A Loira me lembrava Aline, que eu havia conhecido uns dias atrás durante um show de rock. Dedicou uma semana a me roubar beijos e cigarros e aí precisou voltar pro antigo namorado. O que elas queriam? O que elas não queriam?

Ficou tarde e ela ainda me desafiava, mas cansei. Que ela se virasse com aquele cara mesmo, eu não precisava de mais problemas que um outro homem deveria resolver. Andei para casa, a noite sem nuvens e sem estrelas e sem vento. Aline me ligava pelo celular, estava tarde mas ela queria me ver. Continuava sem fazer muito sentido. Que bom.

Quarta-feira, Junho 22, 2005

Lave a sua garganta, traidor.

Há algo de muito podre na história que Roberto Jefferson (e logo quem?) tirou da cartola e tascou no ventilador. Não é o mar de lama de corruptos que inunda Brasília e contamina o restante do país, porque todos nós, em maior ou menor escala, duvidávamos das boas intenções de se levantar o centro do poder de uma nação tão distante da possibilidade de seus representados tacarem o pau naquilo tudo, literalmente, como os bons jacobinos, se assim lhes parecesse o melhor a ser feito. O grande podre da história toda é que, até onde nos chega a vista, todos tentam como podem deixar de fora o comandante do Executivo, de onde se originou tudo. O comandante do Executivo em nosso país é ele mesmo, o Cavaleiro da Esperança de nossos tempos, o Lula.

Eu votei no Lula. Com o pé meio atrás, mas fui lá e dei meu voto de confiança para ele e para o possível governo do PT e, acima de tudo, contra a continuidade dos tucanos no poder. Que merda que eu fiz. Não demorou muito a ficar claro que o PT é o PSDB sem diploma de curso superior e título de doutor. O PT é o PSDB iletrado, poder-se-ia dizer. Tomou nas mãos a administração do país como se gerisse um time de peladas - só entra em campo quem é amigo do dono da bola ou quem levar umas biritas e uma carninha pro churras depois da pelada. Quem era o responsável pela administração vexatória da República? Ele mesmo, Lula, o próprio eleito.

O escândalo de pagamento de propinas por parte do governo (ou do partido que governa, que seja, mas quem governa o país é Lula, não Genoíno) não foi o primeiro deste governo e a suspeita de compra de deputados também maculou o governo anterior. Mas a eleição de Lula teve um aspecto simbólico muito forte que era o de colocar alguém no centro do poder que não compactuasse com a roubalheira, que não fosse um filho da puta corrupto, corruptor ou conivente. Alguém com colhões de não deixar as nossas esperanças serem vendidas. Isso é o podre na história toda, até onde Lula tinha conhecimento, até onde ele deixou passar e quem ele relevou.

A gente sabe que o poder se baseia em saber mais que os outros. Conhecimento é poder. Para você planejar suas ações de modo a bloquear, ou desviar a seu favor, as ações de seus subordinados e concorrentes. É inocência demais alegar que aquela gente toda em Brasília sabia da corrupção e o presidente, o homem que, entre outras coisas, é o comandante-em-chefe de nossas Forças Armadas, ignorava. Se Lula não sabia, o que mais ele não sabia, o que mais seus subordinados ocultavam de seu conhecimento? Ele estava ali de enfeite, tipo um boneco de posto? Francamente. Cantar essa bola para o público aceitá-la com o argumento de que o operário nordestino não seria capaz de gerir um esquema de ladroagem federal é preconceito. Lula convive com as entranhas do poder há quase duas décadas, ele sabe o que acontece ali, quem faz e quando faz. Lula pode não ser doutor, mas garanto a vocês que ninguém chega ao centro do poder de um país sendo estúpido.

Lula nos traiu da forma mais calhorda que poderia fazer. Fernando Collor, de namorada nova, deve estar rindo feito pinto no lixo.

Segunda-feira, Junho 20, 2005

Roberto Jefferson, um cara legal

O Brasil perdeu, o Botafogo perdeu, o Dirceu caiu e eu não confio mais no meu carteiro. Pois é, essa crise mensalão/correios está afetando a vida de todo mundo. Só a baixa cotação do dólar e minhas férias de outubro parecem se manter fora da influência da esfera política e resistem bravamente.

A história do mensalão é triste, lógico, mas provavelmente verdadeira. É a lógica comunista. Se vale matar pelo Estado, por que não valeria pagar uma mesadinha para deputado para garantir o progresso? Tem que pagar, pagando, sabe? Pela mesma lógica bolchevique, não acredito que nossos companheiros embolsaram grana nessa história. Fizeram pelo País, pelo Grande Irmão e pelo Presidente Lula. Tudo maiúsculo mesmo. Se eu fosse deputado federal e tivesse que passar alguns dias por semana em Brasília, eu também aceitaria a mesada. Ou queimaria índios, para compensar a depressão.

Eu adoro discutir política, mas odeio trazer esse assunto para cá, por não poder inserir ficção sem parecer um completo alienado dos assuntos do país. Não dá para colocar o Dirceu e a Dilma na mesma cama, para incrementar a história, assim, de bobeira. Além da alienação, poderia vir um processo. Outro dia um sujeito foi preso por propagar idéias nazistas via orkut. Tenho medo, gente. Até entrei numa comunidade chamada "sou negro e tenho os olhos azuis": para poder circular bem por todas as raças e sobreviver. Queremos sobreviver, né?

A inexistência de histórias ficcionais faz a política brasileira ficar chata. Corrupção é muito comum e já estamos acostumados. Falta um Nasser para colocar um político posando de cueca para as câmeras de um Manzon. Nesse ponto, o governo Collor era imbatível. Teve ministro comendo ministra, tesoureiro morrendo assassinado com namorada, presidente comendo cunhada, cheirando, dando o rabo (dizem). Teve de tudo.

A esperança de o noticiário político voltar para cá noutra ocasião por minhas palavras é só uma: Roberto Jefferson. Porque esse, sim, é totalmente demais. Vale lembrar que estava lá ao lado do Collor divertindo os brasileiros. O Roberto Jefferson é ficção pura, um personagem rodriguiano. Ele fala as coisas de forma tão inacreditável que qualquer pessoa normal diria que ele está mentindo. Mas o genial da história é justamente que ele pode estar falando a verdade e grande parte dos brasileiros acredita nisso. No depoimento ao conselho de ética da câmara, na semana passada, só faltou Jefferson chorar de um olho só. No orkut, até agora, já existem mais de 150 comunidades em homenagem ao sujeito. Vou escolher uma para participar.

Chega de política então. O próximo texto, a não ser que o Jefferson apronte hoje no Roda Viva, será novamente uma ficção, prometo. Vou escrever sobre um órfão. E vou tentar ser fofo.

Quinta-feira, Junho 09, 2005

Esse mundo é um moinho!

Ganha um brigadeiro quem acertar a profissão de Roberto Jefferson, ex-rolha de poço e comandante da tropa de choque do saudoso governo Collor de Mello.
a) Personal trainer
b) Médico urologista
c) Advogado criminalista
d) Sommelier

Terça-feira, Junho 07, 2005

Morcego Negro - Loucura

Havia música, mas eu já não escutava nada. Estava confuso e devia estar longe de casa, eu não sabia que estava em busca de Nina ou simplesmente fugindo de mim. Desde que havia descido do avião, todas as moças, todas as portas, todas luzes pareciam me conduzir em direção a ela. Não há pecado do lado debaixo do Equador, mas eu estava quase acima do trópico, eu era todo avareza, luxúria, inveja, ira, gula, soberba e preguiça. E eu era um idiota, não conseguia deixar Nina partir e ela já o havia feito.

O taxista na saída do aeroporto perguntou para onde eu me dirigia. Respondi que precisava de um trago e o carro me levou rumo à minha obsessão. Nada daquele Bruno que um dia Nina tomara nos lábios sobreviveu a ela, só me restaria ser aquela sombra de mim mesmo que tentava esquecer o que já havia sido, mesmo que por acaso ou descuido. Ele me deixou numa subespécie de inferninho reloaded, as putas dançando trance e house junto dos pinguços batucando forró, tudo no ambiente cheirando a amônia.

Uma das meninas dali passou o braço por sobre meus ombros, cafuné na minha nuca, a língua materializava tudo o que eu precisava ouvir. Os rabos de galos desciam pela garganta como se fossem espermatozóides na corrida ao útero prometido, a menina achava graça naquilo, na minha cara de idiota, na voz que entregava carência, nas mãos que se assanhavam. Num determinado momento vi que ela já me devorava o membro, a noite virou dia e o dia ressaca. Tinha na boca o gosto de amônia, de cigarros, de cachaça e até do sexo da menina, que dormia do meu lado. Ela acordou e ficou me olhando, como se nunca tivesse me visto. Disse que precisava do dinheiro do táxi e disse o valor do programa e perguntou, inocente, já vestida e de banho tomado, quem era Nina que eu tanto gritava na noite.

A realidade despencou sobre mim. E chorei naquele lugar onde eu nem sabia que estava. Eu estava perdido.

E agora, André?

O filho do Pelé é traficante, o governo Lula é corrupto e o time do Botafogo é líder do campeonato. Onde isso tudo vai dar?